Corrida ao centro

Faz sentido que nas eleições de 2022 os candidatos busquem se aproximar do centro. E já há alguns sinais de que isso possa ocorrer.

Fernando Dantas

13 de dezembro de 2021 | 13h35

Há alguns sinais, por enquanto tênues, de uma “       corrida para o centro” nas preliminares do pleito eleitoral de 2022.

Os dois fatos mais vistosos dessa tendência são as articulações para que Geraldo Alckmin seja vice-presidente na chapa encabeçada por Lula, e o diálogo estabelecido entre Ciro Gomes e Arminio Fraga, que resultou inclusive num debate cordial entre os dois.

Faz sentido que os pré-candidatos a presidente tentem fazer aberturas ao centro. Para início de conversa, Bolsonaro é um político extremista que faz um governo muito mal avaliado pela população. É possível que o eleitorado faça a associação direta entre radicalismo e mau governo.

Adicionalmente, a polarização política brasileira do período recente produziu fortes sentimentos de “antipartidarismo” (para emprestar uma expressão dos cientistas políticos Cesar Zucco e David Samuels).

Há muitos eleitores que desejam, mais do que eleger seu próprio candidato, derrotar Bolsonaro ou derrotar Lula. E nessas correntes antipetistas e antibolsonaristas existe bastante da percepção de que os dois candidatos representam o extremo do que aquele eleitor rejeita.

Essa simetria pode ser injusta. Bolsonaro é um político de extrema-direita que, durante o seu governo e mesmo agora em pré-campanha, praticamente não fez nenhum gesto de aproximação com o centro.

Já Lula é um camaleão, que já vestiu diversos figurinos políticos ao longo da sua carreira e, com a aproximação com Alckmin, concretamente fez uma abertura ao centro.

De qualquer forma, na última campanha presidencial, com Haddad como candidato, o PT, movido pelas circunstâncias da época, como Lula na prisão, investiu num discurso polarizador, do “nós contra eles”. É essa imagem que ainda alimenta a polarização a caminho de um possível segundo turno entre Bolsonaro e Lula.

O petista, inteligentemente, percebe que a conquista do centro num eventual segundo turno é o ingrediente necessário para dissolver em alguma medida o antipetismo, o que pode ser decisivo para a vitória. Resta ver se esse movimento resistirá ao empuxo para posições de esquerda mais contundentes trazido pelo entorno de Lula, incluindo sindicatos, intelectuais, corporações do setor público e economistas mais radicalmente heterodoxos.

Já Bolsonaro parece o escorpião da historieta, que ferroa o sapo que lhe dá carona para atravessar o rio, condenando os dois à morte. “É o temperamento” pode explicar por que o atual presidente, na esfera do discurso político, alterna entre o extremismo e o silêncio, e rarissimamente faz acenos à moderação.

De qualquer forma, num eventual segundo turno entre Lula e Bolsonaro, atenuar a estridência tanto do discurso bolsonarista quanto do lulista, apontando para o centro, talvez seja uma boa estratégia.

Se outro candidato chegar ao segundo turno, como Ciro ou Sergio Moro, com certeza vai representar o centro e o eleitor moderado contra Bolsonaro. Se for contra Lula, é possível que tanto o petista como o adversário tentem se tornar mais palatáveis para o eleitor fora da sua base mais fiel de apoio.

Um ponto adicional é que, mesmo que na campanha não se torne tão necessária a aproximação com o centro – imagine-se um cenário em que Lula consolida um esmagador favoritismo, com possibilidade até de vitória no primeiro turno –, para governar depois a história muda.

O Brasil em 2023 será um país com problemas socioeconômicos agudos – para além dos crônicos –, que exigirão muita coordenação com o Congresso e outros atores sociais para serem devidamente atacados.

Além disso, com o advento recente do bolsonarismo, há hoje no Brasil tanto um veio de populismo de direita quanto de esquerda que a oposição pode explorar para paralisar o governo. Sem uma base de apoio que vá muito além dos seus respectivos partidários fiéis, nenhum presidente conseguirá dar conta do recado.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/12/2021, sexta-feira.