Covid: Brasil versus México

Artigo de economistas Nora Lustig e Jorge Mariscal diz que gasto fiscal muito maior do Brasil na pandemia, comparado ao México, levou a melhores resultados sociais e econômicos. O argumento econômico dos autores, porém, é duvidoso.

Fernando Dantas

19 de abril de 2021 | 18h38

Um paradoxo da Covid-19 na América Latina é que o México, cujo presidente é o esquerdista Andrés Manuel López Obrador (conhecido pela sigla AMLO), gastou muito menos para apoiar os vulneráveis atingidos pela pandemia – e suas consequências no mercado de trabalho – do que o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro no Brasil.

Recente artigo dos economistas Nora Lustig (Universidade Tulane, em Nova Orleans) e Jorge O. Mariscal (Universidade Colúmbia, em Nova York), no Journal of International Affairs, da Colúmbia, tenta fazer o argumento de que a alternativa brasileira foi melhor tanto do ponto de vista social como econômico.

Na questão social, é inquestionável. Como notam os autores, o Brasil lançou programas como o BEm, que ajudou a preservar cerca de 10 milhões de empregos, e o auxílio emergencial, que distribuiu 4% do PIB em 2020 para cerca de 1/3 das famílias brasileiras, com foco no trabalhador informal.

Já no México, segundo os autores, houve apenas proibições de demissões e redução de horas trabalhadas no setor formal, empréstimos modestos para cerca de um milhão de pequenos e médios empresários e “praticamente nenhuma medida para mitigar os efeitos no setor informal”.

Como resultado, pobreza e desigualdade aumentaram significativamente no México no ano passado, e no Brasil chegaram inclusive a cair.

Os autores comentam também que, em termos de condução da questão sanitária na pandemia, tanto Brasil como México foram mal, com números próximos e muito elevados de mortes por 100 mil habitantes.

No entanto, quando se comparam números de excesso de mortes – aumento de óbitos totais por qualquer causa –, a indicação é de que o México pode ter sofrido o dobro das mortes por Covid oficialmente reportadas. Enquanto, no caso brasileiro, a subreportação, também usando-se o excesso de mortes como parâmetro, ficou na casa de 10% a 20%. Assim, ao fim e ao cabo, a resposta sanitária à Covid do México pode ter sido ainda pior que a brasileira.

Os argumentos de Lustig e Mariscal se tornam mais questionáveis quando abordam a questão econômica em si. Para começar, chama a atenção os números que dão, sem detalhar, para as medidas de “apoio fiscal e de liquidez” no Brasil e no México em 2020: 14,6% do PIB no caso brasileiro, “constituindo um dos maiores pacotes contracíclicos do mundo”; e apenas 1,1% do PIB no caso mexicano, fazendo do país um dos que deu menos apoio econômico à população.

Misturar medidas de liquidez e fiscais, de natureza muito distintas, é um exercício complicado, e seria bom saber exatamente o que está contabilizado para cada país.

Quando fazem comparações de desempenho em termos de atividade econômica e inflação, os autores recorrem a projeções do FMI mesmo para resultados que já saíram, como o recuo de 4,1% do PIB brasileiro em 2021. O artigo é de 14/4, e o dado já estava disponível. Também as considerações sobre inflação no caso brasileiro parecem desconsiderar a piora do cenário recentemente.

No caso da dívida pública bruta, Lustig e Mariscal escrevem que o aumento em termos de proporção do PIB é similar. Porém, segundo as projeções do FMI por eles mencionadas, a dívida brasileira dá um salto de 13,7 pontos porcentuais do PIB entre 2019 e 2025, de 87,7% para 101,4%; e a mexicana, de 7,4 pp, de 50,3% para 60,7%.

Talvez estejam se referindo ao aumento proporcional, de 16% no caso brasileiro (13,7/87,7), e de 14% no caso mexicano. Mas é um critério muito questionável, principalmente se for considerado que a dívida mexicana em 2019 e 2025 (projetada) está num nível muito mais razoável que a brasileira para um país emergente.

Em termos da análise da reação dos mercados à abordagem mexicana e brasileira da Covid, o argumento de Lustig e Mariscal também é questionável. Eles usam spread de títulos soberanos para mostrar que os mercados reagiram de forma similar ao risco dos dois países durante a pandemia, mas citam que o real se desvalorizou muito mais do que o peso e a bolsa mexicana teve um desempenho bem melhor em dólares.

Os autores citam as taxas de juros mais altas no México e remessas surpreendentemente fortes de imigrantes mexicanos para o país de origem para explicar a diferença do comportamento do câmbio em relação ao Brasil, mas sem qualquer demonstração mais concreta de que foram de fato esses dois efeitos.

Os economistas escrevem que “os mercados de crédito mostram que os esforços [gastos] fiscais do Brasil não foram penalizados, nem a austeridade do México foi premiada”.

A afirmação, porém, está longe de ser bem fundamentada no artigo. O que é evidente é que, de fato, o México fez muito menos do que poderia, o que resultou numa piora social desnecessária e, possivelmente, em uma recessão mais profunda em 2021.

Já o Brasil com certeza acolchoou com gasto maciço o choque econômico-social nos mais vulneráveis, o que foi um alívio em 2020, inclusive do ponto de vista do PIB. Mas o capítulo final dessa história ainda está em suspense em 2021, com a forte desvalorização ligada à insegurança fiscal, o aumento da inflação que bate no orçamento dos pobres e o imbróglio orçamentário, com necessidade de continuar gastando com a pandemia este ano mas sem saber de onde tirar o dinheiro.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 19/4/2021, segunda-feira.