Covid endêmica

Trabalho acadêmico coautorado por Anthony Fauci, principal conselheiro em assuntos médicos de Joe Biden, aponta que não há imunidade de rebanho completa para Covid, mas doença pode ser mantida num nível baixo de disseminação que permita à sociedade voltar à vida normal.

Fernando Dantas

05 de abril de 2022 | 19h22

Segundo trabalho recém-publicado em “The Journal of Infectious Diseases”, publicação médica acadêmica da Oxford University Press sobre doenças infeciosas, o conceito de “imunidade de rebanho” provavelmente não se aplica à Covid-19.

Um dos autores do artigo é Anthony Fauci, diretor do National Institute of Allergy and Infectious Diseases (Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, NIAID, na sigla em inglês) dos Estados Unidos e principal conselheiro em questões médicas do presidente Joe Biden. Os outros autores são David Morens e Gregory Folkers, cientistas do NIAID.

Os autores explicam que, de forma simplificada, “limiares de imunidade de rebanho são atingidos quando uma proporção suficiente da população está vacinada ou se recuperou da infecção natural por um patógeno, de tal forma que a circulação comunitária é reduzida abaixo do nível de um problema significante de saúde pública”.

O problema, porém, é que o SARS-Cov-2, o coronavírus, é muito diferente dos vírus, por exemplo, da poliomielite e do sarampo, em relação aos quais há imunidade de rebanho nos Estados Unidos. Basicamente, os vírus dessas duas últimas doenças têm bem mais estabilidade fenotípica que o coronavírus, o que os faz mais suscetíveis a uma proteção imune de longo prazo.

Dessa forma, segundo o trabalho, “controlar a Covid-19 aumentando a imunidade de rebanho pode ser um objetivo enganoso”.

Os autores explicam que a compreensão da imunidade de rebanho surgiu no século XVIII com a inoculação de varíola em grupos humanos como forma de controlar epidemias da doença.

Com o início da microbiologia, imunologia e epidemiologia no final do século XIX foi possível pela primeira vez entender o porquê dos ciclos epidêmicos de doenças como o sarampo infantil. Em 1904-07, determinou-se que surtos de sarampo em turmas escolares ocorriam quando menos de 70% das crianças estavam imunes, e terminavam quando mais de 85% estavam imunes.

A expressão “imunidade de rebanho” só surgiria ao tempo da primeira guerra mundial, no âmbito da veterinária (o que fica claro pelo próprio nome).

Com o avanço do conhecimento sobre o assunto, verificou-se que o limiar da imunidade de rebanho depende de complexas interações entre vários fatores, incluindo especificidades de doenças e hospedeiros, modos de transmissão (respiratória, intestinal etc.), duração e completude da imunidade, aglomerações e movimentos populacionais, pequenos redutos de pessoas não imunizadas (como grupos religiosos ou outros que não se vacinem) etc.

Essa complexidade levou à visão de que imunidade de rebanho era um conceito teórico útil, mas pouco adequado para aplicação em situações importantes do mundo real.

A gripe, ou influenza na palavra em inglês, é um bom exemplo dos problemas da busca de imunidade de rebanho, escrevem os autores. O fluxo de variações aleatórias dos antígenos (proteínas contras as quais o organismo produz anticorpos) dos vírus – sendo que algumas dessas variações podem produzir pandemias – impede que se atinja imunidade de rebanho.

Mesmo no caso dos estáveis patógenos do sarampo e da poliomielite, em tese controladas por volta dos anos 1960/70  por vacinação maciça e políticas de suspensão temporária de estudantes contaminados nos Estados Unidos, pequenos nichos de populações subvacinadas continuaram a provocar surtos localizados a partir de contaminação vinda do exterior. Mesmo a varíola permaneceu provocando surtos até um último deles em 1978, depois de ter sido praticamente erradicada pela vacinação.

No caso do coronavírus, como no caso também dos vírus de gripe e resfriado, até o conceito de imunidade é fluido, variando da proteção completa e de longa duração até a proteção apenas contra as formas graves, mas sem impedir reinfecção e transmissão.

Segundo os autores, a erradicação da Covid é quase certamente inatingível. O coronavírus, além de muito mutante, é transmitido de forma assintomática (dificultando o controle sanitário) e aparentemente nem a infecção nem a vacinação criam proteção duradoura. E ainda há a resistência de partes da população ao uso de máscara e à vacinação.

Um cenário possível, para os pesquisadores, é aquele em que a disseminação da Covid continua, mas num nível endêmico baixo, de menor gravidade, seguindo o padrão da gripe espanhola, cujos “descendentes virais” (entre eles o recente H1N1) causam surtos até hoje, sem que seja possível controlá-los totalmente com vacinas.

A nota positiva do trabalho é que, após dois anos de intensa circulação e com as vacinas e suas doses de reforço – além de avanços médicos como antivirais e anticorpos monoclonais –, haverá um nível de controle suficiente do Covid para evitar as enormes perturbações da vida em sociedade ocorridas desde a eclosão da doença. Em termos científicos, notam os autores, o desafio imediato é desenvolver vacinas “universais” de Covid, isto é, que criem proteção contra qualquer variante.

Os autores concluem que a melhor forma de conviver com a Covid é “otimizar a proteção da população sem medidas restritivas nas nossas vidas cotidianas”. O que é diferente de buscar a imunidade de rebanho clássica.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/4/2022, segunda-feira.