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Covid, “modelos de capitalismo” e o Brasil

Estudo de economistas mostra que países europeus foram melhores, diante da pandemia, em termos sociais, do que o Estados Unidos que, no entanto, têm um modelo econômico que gera mais inovação. E como fica o Brasil nesse debate?

Fernando Dantas

02 de julho de 2020 | 20h39

A crise da Covid-19 colocou novamente em foco a questão dos diferentes modelos de capitalismo. Recente artigo dos economistas Philippe Aghion (London School of Economics), Helene Maghin (University of Kansas) e André Sapir (Centro de Pesquisa de Política Econômica, Londres) mostra que tanto a versão liberal norte-americana (dos Estados Unidos, no caso) quanto a versão social democrata europeia de capitalismo têm trunfos úteis para o período durante e após a pandemia. Mas ambos também têm vulnerabilidades.

Em termos de lidar com os efeitos imediatos da crise, o modelo europeu mostrou ampla vantagem.

A taxa de desemprego nos Estados Unidos e na Alemanha, por exemplo, estava bem próxima antes da pandemia, abaixo de 5%. A projeção é de que o desemprego americano suba para mais de 10% em 2020, caindo em 2021, mas ainda se mantendo num nível muito superior ao pré-crise. Já no caso da Alemanha, há um pequeno acréscimo em 2020, que ainda mantém a taxa de desemprego abaixo de 5%, e em 2021 chega-se de volta a um patamar muito próximo do pré-pandemia.

Os economistas também comparam a proporção de pessoas com cobertura assegurada de saúde nos dois países. Na Alemanha, por causa do sistema universal, ela é virtualmente de 100%. Nos Estados Unidos, não só 9% da população não estava segurada antes da pandemia, como essa parcela deve subir para 12% em 2020 e recuar para 11% em 2021.

A razão pela qual o número de pessoas sem cobertura de saúde aumenta nos Estados Unidos em plena pandemia é que muitas vezes esses benefícios estão ligados a empresas, sendo perdidos em caso de desemprego.

Quando se estima a parcela da população em risco de cair na pobreza, a Alemanha também dá um banho nos Estados Unidos, tanto no nível pré-crise, bem abaixo do norte-americano, como no que acontece na pandemia – enquanto a seguridade social alemã evita praticamente qualquer aumento do risco de pobreza na pandemia, segundo as estimativas dos autores, nos Estados Unidos há um salto substancial.

Em números, o risco de cair na pobreza na Alemanha era de 16% antes da pandemia e é projetado em 16,4% em 2020 e 2021. Já o mesmo indicador nos Estados Unidos salta de 24,4% para previstos 30,7%, entre o período pré-pandemia e este e o próximo ano.

Os autores fazem os mesmos tipos de comparação entre os Estados Unidos e outros países europeus, como Reino Unido, França, Itália e Espanha, e as diferenças em relação aos indicadores americanos quase sempre é favorável às nações do velho continente.

Quando eles se voltam para a inovação, no entanto, o quadro se inverte. Os autores notam que essa vantagem, que no caso vai para os Estados Unidos, pode ser um fator importante na retomada econômica pós-Covid.

Os Estados Unidos têm bem mais patentes por mil habitantes que Alemanha, França e os três principais países escandinavos, Suécia, Dinamarca e Noruega. Quando a comparação é relativa ao 5% das patentes mais citadas em trabalhos científicos, a diferença pró-americana é arrasadora. Os Estados Unidos têm 72% delas, e a Alemanha, o melhor europeu naquele grupo, apenas 0,4%.

Na área produtiva, os Estados Unidos são responsáveis por 24% do valor adicionado global e 30% do valor adicionado mundial em setores altamente intensivos em pesquisa e desenvolvimento. Já a União Europeia tem 26% do valor adicionado global e 20% a 22% do VA intensivo em P&D.

E como o Brasil fica nessa disputa de modelos de capitalismo na pandemia e na era que se seguirá a ela?

Está claro que o coronavírus por aqui está mexendo muito mais com as avaliações sobre o sistema nacional de seguridade social do que com a preocupação sobre inovação e tecnologia.

Como nota o economista Samuel Pessoa, pesquisador do Ibre/FGV e sócio-diretor do Julius Baer Family Office, a Covid-19 colocou no radar brasileiro os trabalhadores informais “invisíveis”, que não estão nem nos registros de trabalho formal nem no Cadastro Único dos programas sociais, voltado aos pobres e muitos pobres.

Foi para esse grupo que foi montado às pressas o auxílio emergencial, um programa que, se fosse tornado permanente nas suas bases iniciais, custaria 15 vezes mais que o Bolsa-Família e representaria uma despesa equivalente a 70% de todo o gasto do Regime Geral de Previdência Social (RGPS), mais conhecido como INSS.

Assim, embora a pandemia tenha sido ocasião de se tentar mapear os invisíveis (algo realizado de forma muito precária, com abundância de fraudes e não inclusão de pessoas necessitadas), a ideia de que a lição da Covid-19 seja a de que o Brasil tem que se aproximar mais do modelo europeu de capitalismo é muito perigosa.

O Brasil não resolveu seu problema fiscal estrutural mesmo antes de uma hipotética nova rodada de extensão do aparato de seguridade social, e já tem uma carga tributária muito alta para um país emergente, como nota Pessoa.

“Nós parecemos reunir, de certa forma, o pior dos dois sistemas: um gasto público enorme para um país com as nossas características, mas de muita baixa efetividade, como mostram a pobreza, a desigualdade e a própria necessidade de lançar programas adicionais na pandemia; por outro lado, sofremos de uma sistema tributário com alta carga e complexidade disfuncional, que cria ineficiência e desestimula a inovação”, ele sintetiza.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 1/7/2020, quarta-feira.

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