Credibilidade do BC em risco

Banco Central está sistematicamente errando projeções e fazendo sinalizações que em seguida são revertidas. Compreende-se, porque mercado comete enganos parecidos em tempos de incrível incerteza. Infelizmente, porém, justo ou injusto, credibilidade do BC sofre com isso.

Fernando Dantas

08 de abril de 2022 | 20h01

No Relatório Trimestral de Inflação de março deste ano, divulgado há 15 dias, consta a projeção do BC (no cenário alternativo “mais provável”, com preço cadente de petróleo em 2022) de inflação de 2,1% no trimestre março, abril e maio. Nessa projeção estava embutida a previsão de um IPCA de 1,02% em março. O resultado efetivo saiu hoje, de 1,62%, uma das maiores surpresas para cima da inflação mensal da história do regime de metas no Brasil.

Assim, apenas no primeiro mês do trimestre março-abril-maio, já se acumula um erro de 0,6 ponto porcentual (pp) na projeção do BC.

É possível em tese que erros em direção contrária em abril e maio mitiguem esse “prejuízo” inicial em termos de projeção – houve o anúncio da volta da bandeira verde nas contas de energia elétrica a partir de 16/4. Ainda assim, o IPCA de março sinaliza o nível altíssimo de incerteza em que opera a autoridade monetária, fenômeno que, evidentemente, não se limita ao Brasil.

“Estamos vivendo um ambiente, com pandemia seguida de guerra, de choques extraordinários, que nunca vivemos antes, e que está levando a erros de projeções econômicas igualmente descomunais”, comenta um respeitado gestor de recursos em São Paulo.

Ele nota que, assim como o BC, o mercado também errou feio na projeção da inflação de março. O resultado veio muito acima da mediana das estimativas do Projeções Broadcast, de 1,35%, e significativamente maior que o teto de 1,44%.

Claro que o IPCA de março levou o mercado a mais uma rodada de questionamento do “plano A” do Copom, de encerrar o atual ciclo de alta da Selic com mais uma elevação de 1pp na reunião do início de maio, o que levaria a taxa básica para 12,75%.

A curva de juros hoje repôs uma alta de 0,5pp na Selic para além dos 12,75%, depois de recuos recentes na esteira da apreciação do câmbio, da bandeira verde e da comunicação enfática do BC em relação ao “plano A”. E a curva já sinaliza Selic mantida no pico até pelo menos o final deste ano.

Com o resultado de hoje, as projeções de IPCA em 2022 devem subir (no último relatório Focus a mediana foi de 6,82%). Alguns já cogitam até de inflação em torno de 8% este ano, o que contaminaria fortemente as expectativas para 2023, e talvez mexesse até com as de 2024. Na última rodada do Focus, a mediana do IPCA para o ano que vem estava em 3,8% (para uma meta de 3,25%), e para 2024 em 3,2% (meta de 3%). Esses números podem subir, especialmente o de 2023.

O gestor mencionado acima observa que “o Copom já fez várias declarações ao longo deste ciclo de alta das quais teve que voltar atrás em seguida”.

Esse desempenho da comunicação, até certo ponto, é compreensível, e não se limita ao Brasil. Os erros nas projeções das autoridades monetárias, levando igualmente a erros nas suas sinalizações e posicionamentos perante o mercado, estão ligados justamente à enorme incerteza trazida pela situação inédita de pandemia seguida por guerra.

Aliás, o BC deixou claro na sua comunicação que surpresas ruins em termos inflacionários, como a de hoje, poderiam levá-lo a sair do figurino do “plano A” e estender o aperto monetário.

Ainda assim, mesmo com as ressalvas e justificativas a posteriori (até justas), é difícil mitigar os danos à credibilidade da autoridade monetária trazidos por erros sistemáticos e consecutivos de avaliação do cenário econômico.

O gestor nota que, por enquanto, as expectativas do mercado para a inflação de 2023 e 2024 apontam que o BC ainda tem capital de credibilidade, pois, mesmo que não cravadas nas metas, não estão tão distantes.

Mas a credibilidade é fatalmente erodida pela inflação que teima em surpreender para cima. A medida da “perda” desse capital de credibilidade será dada justamente pelo descolamento das expectativas de inflação de médio e longo prazo, como as de 2023 e 2024.

E, para evitar que isso ocorra, o Banco Central não tem outra fórmula a não ser engrossar a voz na mensagem (e ter disposição de cumpri-la) de que fará o que for preciso para trazer a inflação de volta à trajetória das metas.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 8/4/2022, sexta-feira.