Crédito impulsiona a retomada

Fernando Honorato Barbosa, economista-chefe do Bradesco, vê situação de crédito positiva para empresas, bancos e até para pessoas físicas, e destaca diferença entre a situação atual e saída da recessão de 2014-2016. (O texto foi corrigido no sexto parágrafo: a relação é entre a dívida líquida e o Ebitda, e não o contrário, como constava do texto.)

Fernando Dantas

30 de julho de 2021 | 08h01

O cenário do crédito no Brasil está particularmente positivo e deve ser contado como um suporte a mais na recuperação da economia brasileira.

A visão é de Fernando Honorato Barbosa, economista-chefe do Bradesco.

Ontem, foi divulgado que o estoque de crédito no sistema financeiro nacional aumento 0,9% em junho, acumulando alta de 16,3% em 12 meses. Já as concessões avançaram 1,6% em junho e 32,1% em 12 meses (com benefício da base comparativa baixa por causa da pandemia).

Barbosa nota que a “pandemia não virou uma crise de crédito do setor privado”.

Nesse sentido, ele realça a enorme diferença entre o ciclo econômico brasileiro da recessão de 2014 a 2016 e o da atual recessão e retomada em função da pandemia, em termos do crédito e da situação financeira dos bancos e das empresas.

Segundo Barbosa, as empresas se desalavancaram durante a pandemia. Hoje, ele nota, a relação entre a dívida líquida e o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) das empresas listadas na B3, que atingiu 1,8 em dezembro de 2020, é a mais baixa em pelo menos uma década.

O pico recente, de aproximadamente 3,2, ocorreu em 2016 e o nível mais baixo dos últimos anos (fora o atual) foi de 2,1, atingido duas vezes por volta dos finais de 2014 e de 2019.

Outro  indicador que ajuda a ter uma ideia também das empresas não listadas são as recuperações judiciais, que estão no menor nível em 12 anos.

O economista-chefe do Bradesco nota que as empresas já estavam em processo de desalavancagem antes da pandemia, mas após a chegada do coronavírus a tendência se intensificou.

Com a pandemia, as empresas tomaram linhas de crédito junto aos bancos, para proteger o caixa, reduziram investimentos e fizeram ajustes operacionais. Dívidas foram renegociadas e repactuadas com juros mais baixos, puxados por medidas do Banco Central e pela Selic que desceu ao seu menor nível histórico.

O governo injetou centenas de bilhões de reais de ajuda para empresas e famílias, que suavizaram a queda da economia. Assim, o fluxo de caixa acabou até melhorando, já que boa parte do colchão formado não foi utilizado.

As empresas prepararam-se para uma tempestade que, por certo ângulo (e a depender do setor, claro), não aconteceu, ou ocorreu de forma bem menos intensa do que a antecipada.

O capital dos bancos também foi reforçado, como reflexo da melhora financeira das empresas, da sua própria (dos bancos) preparação para a crise e de medidas prudenciais do BC.

Barbosa observa que “a contrapartida da melhora do crédito no setor privado foi a piora do balanço público”, referência aos gastos fiscais da pandemia.

Porém, com o impulso da economia e a melhora surpreendente da arrecadação, o balanço público mais recentemente também está melhorando.

“A economia nominal ganhou tração”, diz o economista, referindo-se ao fato de que não só a atividade se acelerou como a inflação subiu, sendo este segundo item favorável num primeiro momento à arrecadação.

O economista também chama a atenção para o desempenho do chamado crédito total ampliado, que inclui o mercado de capitais e a dívida externa, cujo estoque saiu de pouco menos de R$ 3 trilhões em 2013 para um nível acima de R$ 8 trilhões em 2021.

O destaque é o crescimento espetacular da contribuição do mercado de capitais (mais dívida externa). Em 2013, sua parcela no estoque era inferior a R$ 500 bilhões. Hoje é responsável por cerca de metade dos R$ 8 trilhões.

Pessoas físicas

Há, finalmente, a questão do crédito à pessoa física, em relação ao qual surgiram preocupações com o fato de que a dívida das famílias atingiu o nível recorde de 58,5% da renda, e o comprometimento de renda com o serviço da dívida bateu em 30,5%, nível elevado para o padrão histórico. Ambos os dados são de abril.

Barbosa diz que dá um “desconto” para esses números, porque considera que pode haver problemas de mensuração com o denominador, a massa de salários.

Ele menciona a questão de a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), que mede a renda, estar sendo feita por telefone, e não presencialmente, o que, segundo algumas análises, pode estar prejudicando a acuidade dos dados coletados.

Outra ressalva para ele é o fato de que as famílias formaram poupança na pandemia, e o que aqueles índices de endividamento medem é a dívida bruta, na qual os ativos não entram na conta.

O economista observa que, dos cerca de 70 milhões de brasileiros que receberam auxílio emergencial em 2020, a parcela dos que precisaram mesmo usar os recursos para a sobrevivência foi de 25/30 milhões. Assim, para 40 milhões, os recursos reforçaram a poupança.

De qualquer forma, Barbosa vê uma inconsistência entre o elevado nível de endividamento das famílias reportado e a inadimplência no crédito às pessoas físicas, que vem se mantendo em torno de 4,1%, o nível mais baixo desde pelo menos 2010. Já a inadimplência das empresas está no nível muito baixo de 1,9%, e nem chegou a subir durante a pandemia.

Segundo Renan Diniz, economista do Bradesco com foco em crédito, em termos de pessoas físicas na pandemia, o crédito imobiliário cresceu forte inicialmente com a formação de poupança e a queda dos juros, e agora as linhas mais ligadas a consumo estão puxando a aceleração.

As projeções do Bradesco, não muito diferentes das do Banco Central, são de que o crédito à pessoa física cresça 13,4% este ano e o da pessoa jurídica se expanda em 7,5%.

As projeções do Bradesco, não muito diferentes das do Banco Central, são de que o crédito à pessoa física cresça 13,4% este ano e o da pessoa física se expanda em 7,5%.

“A carteira de crédito total deve crescer entre 11% e 12% este ano”, diz Barbosa.

Quanto ao ciclo de alta da Selic, ele aponta que, em termos de custo de crédito, ele já foi antecipado na curva de juros e, portanto, é compatível com o atual momento.

Isso poderia mudar, especialmente em segmentos como o crédito imobiliário, se a taxa básica, por causa do aumento da inflação, fosse a 8% ou mais neste ciclo atual, o que não é o cenário do Bradesco (a última projeção para o ponto máximo é 6,5%, mas amanhã haverá novos números).

Em termos de impacto na economia, a boa fase do crédito, que Barbosa julga ser mais que circunstancial, pode ser – na visão do economista – o ingrediente que faltou na saída da recessão de 2014-2016, com crescimento decepcionante e inferior a 2% no triênio 2017-19, mesmo com as reformas do governo Temer.

A projeção de crescimento do PIB do Bradesco é de 5,2% em 2021 e 2,2% em 2022.

Mas 2,2% no ano que vem não é muito pouco se o bom momento do crédito está dando suporte à retomada?

Barbosa responde que essa projeção é conservadora, levando em conta múltiplos riscos: novas ondas de Covid, situação internacional (inflação americana no foco), ano eleitoral etc.

“Se todos esses temores de dissiparem, o viés é de alta”, conclui o economista.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 29/7/2021, quinta-feira.