Crédito universitário, nos EUA e no Brasil

O que a experiência de empréstimos para quem cursa universidade nos EUA ensina ao Brasil, às voltas com problemas no Fies.

Fernando Dantas

15 Abril 2015 | 16h59

Assim como no Brasil, os empréstimos para financiar estudos universitários também são um tema quente nos Estados Unidos: tanto pelos benefícios como pelos problemas que podem causar. Recente série de artigos no blog Liberty Street Economics, do Federal Reserve (Fed) de Nova York, traça um panorama do crédito universitário nos Estados Unidos.

Um dos fatos descritos é preocupante do ponto de vista das dificuldades que o Programa de Financiamento Estudantil (Fies) do Brasil possa vir a enfrentar. A análise no Liberty Street Economics mostra que as maiores taxas de inadimplência encontram-se entre aqueles que tomaram menores volumes emprestados, e que provavelmente são os que não completaram os estudos universitários.

Recentemente, houve dificuldades com o aditamento dos contratos do Fies. Elas incluíram, além dos problemas no site,  questões como tetos de ajuste de mensalidades, maior exigência nas notas (dos cursos), critérios regionais e outras medidas que afetam as instituições, mas podem acabar ameaçando a continuidade dos estudos de alunos financiados. Isto, por sua vez, pode aumentar o número de financiados com os estudos interrompidos, que o estudo no blog do Fed de Nova York mostra que são os mais propensos à inadimplência.

As pesquisas indicam que os trabalhadores com graduação universitária nos Estados Unidos ganham em média 80% a mais do que os não graduados, e são menos suscetíveis ao desemprego. Os créditos para estudos universitários, por sua vez, saltaram da menor participação entre todas as categorias de empréstimo às famílias antes de 2009 para a segunda maior fatia a partir de 2010, só perdendo para o crédito hipotecário. Neste período, como proporção do crédito às famílias, os empréstimos a estudantes – que já somam quase US$ 1,2 trilhão – ultrapassaram linhas como financiamento à aquisição de automóveis e de cartões de crédito.

O crédito universitário nos Estados Unidos tem crescido tanto em termos de números de beneficiários como de volume emprestado a cada um. Hoje são 43 milhões de beneficiários, com volume médio de empréstimo por tomador de US$ 27 mil. Há uma grande heterogeneidade entre os tomadores de empréstimos para o ensino superior. Aproximadamente 39% devem menos de US$ 10 mil, mas 4%, ou 1,8 milhão de pessoas, devem mais de US$ 100 mil. A dívida mediana é de US$ 14 mil.

Com uma definição de inadimplência como atrasos de 270 dias ou mais, uma parcela de 11% dos tomadores de crédito nos Estados Unidos estavam inadimplentes no quarto trimestre de 2014, e mais 7% já haviam estado na mesma categoria no passado. Além disso, 6% adicionais estavam atrasados em seus pagamentos, mas por menos tempo do que a definição de default. E, considerando-se todos os financiados que deixaram de fazer pelo menos um pagamento programado, o número sobe para 37%.

Os dados indicam que a velocidade e o volume das inadimplências vêm crescendo com as sucessivas coortes que tomam empréstimos universitários nos Estados Unidos.

Mas a informação que merece ser um alerta para o programa brasileiro é a de que a maior proporção de inadimplência, que atinge 34% dos tomadores, está entre aqueles que devem até US$ 5 mil, e que devem concentrar os que não concluíram os estudos universitários. A inadimplência entre os que devem mais de US$ 100 mil cai pela metade, ficando em 18%. Estes números referem-se apenas à coorte de 2009.

Embora do ponto de vista financeiro, o volume de crédito por aluno e o número de inadimplentes possa equilibrar as perdas entre os dois grupos, evidentemente dificultar a continuidade dos estudos universitários de tomadores de crédito para estudar cria o pior dos mundos: uma dívida sem o benefício de se conquistar o diploma do terceiro grau e as vantagens que ele traz do ponto de vista individual e para a economia como um todo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News Broadcast em 10/4/15, sexta-feira