Cresce desigualdade na Europa

Novo estudo, que usa metodologia similar à de Thomas Piketty, do famoso "O Capitalismo no Século XXI, analisa 38 países europeus e mostra que em quase todos a distribuição de renda piorou entre 1980 e 2017. Ainda assim, Estados Unidos permanecem mais desiguais que a Europa.

Fernando Dantas

23 de abril de 2019 | 19h43

A desigualdade tornou-se um tema de grande importância depois da crise financeira global, mas a medir não é exatamente uma tarefa fácil. Além de questões sobre qual tipo de índice escolher – o Gini é o mais difundido, mas o peso dado a diferentes partes da distribuição pode variar de acordo com o indicador –, há o problema da qualidade das informações.

Pesquisas domiciliares, com a PNADC brasileira, das quais saem muito dos índices de desigualdade, são criticadas por não medirem direito a renda das camadas superiores da distribuição, que em boa parte vem do capital – dividendos, renda financeira, aluguéis etc.

A grande repercussão há alguns anos do livro “O Capital no Século XXI”, do economista francês Thomas Piketty, derivou em parte de se combinar pesquisas domiciliares, microdados tributários e informações das Contas Nacionais para medir com mais precisão a distribuição de renda dos países. No Brasil, alguns pesquisadores já lançaram mão desse tipo de metodologia, como Marcelo Medeiros, do Ipea, entre outros.

Agora, dois economistas da Escola de Economia de Paris, Thomas Blanchet e Lucas Chances, e Amory Gethin, do World Inequality Lab, think tank internacional devotado ao estudo da desigualdade, acabam de divulgar uma nova pesquisa, nessa mesma linha, que mostra que a distribuição de renda piorou na maior parte dos países europeus entre 1980 e 2017.

Ainda assim, os autores constataram que essa piora da desigualdade na Europa foi inferior à ocorrida nos Estados Unidos.

Um resumo do estudo foi publicado no site do Centre for Economic Policy Research, um think tank europeu.

Os autores usaram todas as fontes de dados existentes para calcular as “distributional national accounts” (contas nacionais distribucionais) de 38 países europeus desde 1980 (até 2017).

Eles desenvolveram uma metodologia para dar conta de três tipos de problemas nos dados: diferentes conceitos de renda (antes ou depois dos impostos, por exemplo), a já mencionada tendência à subnotificação de renda pelos mais ricos e a omissão de “rendas imputadas”, como o equivalente ao aluguel de moradores em casa própria ou lucros retidos que, apesar de não distribuídos, contribuem para aumentar a riqueza dos acionistas.

Os autores trabalham com o conceito de renda pré-impostos, que inclui benefícios previdenciários e seguro-desemprego, e não exclui os impostos pagos e não inclui as transferências sociais recebidas; e “pós-impostos”, que exclui os impostos diretos e indiretos e inclui as transferências em dinheiro ou bens.

A metodologia que combina pesquisas domiciliares, microdados tributários e contas nacionais capta, alguma vezes, discrepâncias muito grandes nas medidas de desigualdade provenientes apenas das pesquisas domiciliares. No caso da Polônia em 2017, a parcela da renda antes dos impostos detida pelos 10% mais ricos salta de 25%, baseado apenas nas pesquisas, para 38%, quando os autores usam sua metodologia mais completa.

De maneira geral, em quase todos os países europeus a parcela dos 10% mais ricos na renda subiu consistentemente no período analisado. Na Alemanha, o indicador pré-impostos subiu de 28% para 35% entre 1980 e 2017. Os países do Leste europeu, que eram menos desiguais, aproximaram-se ou alcançaram os níveis de desigualdade do resto do continente com a transição do comunismo para o capitalismo, segundo os dados dos autores.

Embora a dinâmica da desigualdade no período analisado seja dada pela renda antes dos impostos – e, portanto, pelas políticas que afetam esta variável –, o sistema de impostos e de transferências sociais reduz a desigualdade. Tomando-se o número de vezes que a renda média dos 10% mais ricos é maior do que a renda média dos 50% mais pobres, a taxação e as transferências sociais reduziram a desigualdade em 2017 em 29% na Europa Ocidental, e 15% na Europa Oriental.

O estudo revela ainda que a desigualdade na Europa se deve mais às diferenças dentro dos países do que entre diferentes países.

Os autores mostram, finalmente, que, mesmo tendo subido consistentemente, a desigualdade europeia ainda é bem menor que a americana. Nos Estados Unidos, a parcela do 1% mais rico da população pulou de 10% para 20% da renda nacional entre 1980 e o presente, comparado a 7,5% para 11% na Europa no mesmo período. E os 50% mais pobres nos Estados Unidos tiveram crescimento de renda de apenas 3% no período analisado, comparado a 40% para os seus equivalentes europeus.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 23/4/19, terça-feira.