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Crescem chances de “tocar com a barriga”

Fernando Dantas

16 de setembro de 2013 | 11h13

No final do primeiro semestre deste ano, a política econômica da presidente Dilma Rousseff entrou em xeque. Bem antes disso, já havia sinais de que as mudanças realizadas pelo atual governo, que acabaram conhecidas como “a nova matriz econômica”, não estavam funcionando bem. A ideia central parecia ser a de levar a economia brasileira para um novo equilíbrio, como juro real mais baixo e câmbio mais depreciado. Mas o que se colheu em 2011 e 2012 foi baixo crescimento e inflação pressionada.

O final do primeiro semestre de 2013, porém, foi particularmente cruel para a equipe econômica. Em maio, começou o processo de alta dos juros de longo prazo americanos, deflagrado pela perspectiva de início da normalização da política monetária do país. O impacto na taxa de câmbio dos emergentes foi forte, sendo particularmente intenso no caso do real, que sofreu uma grande desvalorização, trazendo novas pressões para um quadro inflacionário que já era difícil.

Em junho, vieram da China notícias particularmente alarmantes sobre a possibilidade de uma desaceleração mais brusca da potência asiática, cuja gigantesca importação de commodities, como é bem sabido, foi uma das molas propulsoras do razoável desempenho econômico do Brasil na década passada. Além disso, junho foi o mês da eclosão de maciças demonstrações populares no Brasil, que embaralharam as cartas do jogo político e eleitoral, colocaram na mesa novas demandas sobre os serviços prestados pelo setor público e puseram um fim à fase de esmagadora popularidade dos presidentes petistas, iniciada durante o mandato de Luiz Inácio Lula da Silva.

Diante do quadro agudo de dificuldades na virada do primeiro para o segundo semestre, surgiu a ideia de que a única saída do governo seria dar uma virada na política econômica, na direção da ortodoxia. Para muitos analistas, seria preciso inclusive substituir a cúpula da equipe econômica, a começar pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. O fato de que Dilma reafirmasse, sempre que tinha ocasião, as linhas gerais da sua condução econômica exasperava os mais pessimistas.

Uma análise mais cuidadosa, porém, indicava que o fator político, às vésperas de um ano eleitoral, sobrepujava as considerações puramente econômicas. Uma mudança explícita da política econômica, numa direção mais liberal, que sempre foi identificada com os opositores tucanos, seria quase uma confissão de que o adversário tinha razão. A alternativa óbvia para o governo seria a de fazer ajustes discretos, como dar um pouco mais de liberdade ao Banco Central para combater a inflação, ou melhorar as condições de rentabilidade das concessões, para evitar fracassos nos ambiciosos leilões de infraestrutura deste ano.

O grande problema, porém, era o risco de a situação se deteriorar ainda mais. Havia (e ainda há) três processos em andamento que eram ameaçadores para o governo. Sobre dois deles, a alta dos juros americanos e a desaceleração chinesa, o Brasil não tem nenhum poder de influência, e tudo o que pode ser feito é tomar medidas defensivas. Sobre o terceiro, a insatisfação popular despertada em junho, o governo pode atuar, mas o próprio caráter inesperado e complexo do evento torna muito difícil encontrar a reação adequada.

A equação econômico-política do governo é relativamente simples. Já parece quase certo que o desempenho do PIB no governo de Dilma será medíocre, mesmo que haja forte surpresa positiva daqui para frente. A inflação também se manteve alta, mas não descontrolada. Há, contudo, um grande trunfo, que é, no fundo, o que mais importa. O mercado de trabalho ainda exibe bons números, e influencia de forma positiva a renda e o consumo, que são a verdadeira moeda eleitoral.

Há riscos, porém, no front de emprego. Existe uma discrepância recente entre os dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), que se refere ao mercado de trabalho com um todo nas principais regiões metropolitanas, e os números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que contabiliza o emprego formal em todo o País. Enquanto o Caged se deteriora, a PME mantém o retrato de um mercado de trabalho em muito boa forma, mesmo que ligeiramente menos exuberante do que no ano passado.

Preservar o mercado de trabalho até que a população vá às urnas é crucial para o governo. O problema, porém, é que os três processos mencionados acima, que são em grande parte independentes da atuação da equipe econômica, podem ser os fatores decisivos a determinar o curso da atividade econômica e, indiretamente, do emprego. No caso da insatisfação popular que veio à tona em junho, isso se dá pela erosão da governabilidade e da confiança dos agentes econômicos.

Assim, não é inimaginável uma situação em que, diante de uma ameaça bem mais concreta à sua munição eleitoral, o governo fosse quase forçado a uma guinada mais forte na política econômica, como tentativa desesperada de resgatar a economia e estancar a perda de popularidade.

Como evoluiu

Passados dois meses e meio do pior momento para Dilma, porém, está claro que o quadro evoluiu favoravelmente para a presidente, dadas as circunstâncias. A combinação de indicadores decepcionantes nos Estados Unidos com maciças políticas de intervenção cambial no Brasil e em outros países com moedas afetadas fez com que o dólar recuasse um pouco, ainda que a taxa dos juros americanos de longo prazo se mantenha em patamar alto ante o que ocorria até maio. Na China, houve uma sensível melhora do sentimento em relação à economia, impulsionada por demonstrações explícitas do governo de que quer evitar o “pouso forçado”.

Já no Brasil, a popularidade de Dilma teve uma recuperação parcial (que parece já ter se estancado, é verdade), e uma sucessão de indicadores econômicos têm vindo acima das expectativas, como o PIB do segundo trimestre, as vendas de varejo em julho e o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) de julho. Não há nada para comemorar, mesmo porque houve também indicadores muito ruins (a produção industrial de julho, que caiu 2%), e o quadro geral continua desanimador. Mas as surpresas positivas recentes fizeram retroceder os cenários mais catastrofistas.

Diante desse relativo alívio, parecem aumentar as chances de que a estratégia de “tocar com a barriga” a economia até as eleições, com ajustes ortodoxos pontuais e discretos, se consolide como a escolha da presidente Dilma. É claro que grandes surpresas negativas, que recoloquem de forma dramática o risco de atividade econômica ainda mais combalida e deterioração do mercado de trabalho, podem mudar os cálculos do governo. É certo, por outro lado, que, quanto mais se aproximam as eleições, maiores são os custos, e mais incertos os benefícios, de uma mudança profunda na política econômica.

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast (e-mail: fernando.dantas@estadao.com)

Este artigo foi publicado na AE-News/Broadcast na sexta-feira, 13/9/13

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