Crescimento e atalhos

A estagnação brasileira é parte da fragilidade macroeconômica do País, mas economistas como Solange Srour e Silvia Matos acham que é preciso controlar a angústia e evitar os atalhos.

Fernando Dantas

22 de agosto de 2019 | 19h44

O Brasil está sendo afetado pela piora do cenário global e a crise argentina de forma menos drástica do que no passado, mas está longe de imune.

O País provavelmente pode pegar um resfriado forte, mas não uma pneumonia, com a deterioração internacional. O grande problema, porém, é que não é preciso uma pneumonia para abortar mais uma vez a tentativa da atividade econômica brasileira de sair da estagnação neste segundo trimestre – mesmo um resfriado pode dar cabo dos débeis sinais de vida da economia.

E a falta de crescimento, por sua vez, realimenta o risco Brasil, como nota Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX no Rio.

“A gente precisa de crescimento para a conta fiscal fechar, e é por isso que a falta de crescimento incomoda muito”, diz a analista.

Ela nota que o PIB potencial brasileiro hoje é bastante baixo, por volta de 1,5%, mas a grande capacidade ociosa da economia significa que, por algum tempo, poderia haver crescimento bem acima deste nível.

A expectativa era de que, perseverando no caminho das reformas (e a reforma da Previdência tem sido uma grande conquista nesta seara), o PIB pudesse atingir um crescimento na margem de até em torno de 3%. Mas a economia mal consegue andar 1% no momento. Solange projeta 0,8% de alta do PIB em 2019 e 2% em 2020.

Uma corrente de economistas, a maior parte não participante do mercado financeiro, considera que o problema do não crescimento está ligado a uma visão dogmática – que domina as equipes econômicas desde o governo Temer – contra estímulos fiscais e conservadora em relação a estímulos monetários.

Solange discorda dessa visão: “Foi a política fiscal mal utilizada (referência ao período até 2014) que nos jogou nessa lama na qual estamos atolados, e o mercado veria com muito maus olhos se o governo resolvesse retomar aquele caminho”.

Silvia Matos, coordenadora da pesquisa macro de conjuntura no Ibre/FGV, vai na mesma linha.

“Não há como resolver o problema do crescimento com atalhos, a gente já tentou e não deu certo”, ela diz.

Segundo Silvia, a atual crise de crescimento no Brasil é o encontro dos problemas conjunturais com os estruturais.

“O longo prazo finalmente chegou”, aponta.

Para ela, a baixa capacidade de crescimento da economia brasileira foi mascarada na história recente pelo crescimento desmedido do gasto público e do crédito dos bancos estatais, além do choque externo positivo das commodities.

Agora, porém, o espaço para usar “anabolizantes” foi exaurido, e o crescimento depende – no curto, médio e longo prazos – de reformas fiscais e tributária, da agenda microeconômica de melhora do ambiente de negócios e redução da informalidade, do relançamento dos investimentos em infraestrutura por meio de concessões etc.

Silvia nota que o consumo das famílias já está crescendo num ritmo um pouco melhor, mas não é acompanhado pelos investimentos, tanto por questões ligadas à incerteza quanto ao futuro (a agenda mencionada acima) quanto pela digestão do ciclo de maus investimentos do passado recente.

Ela acrescenta que há ociosidade no mercado de trabalho, mas não na infraestrutura: um arranque muito rápido da economia certamente provocaria problemas pelo lado da oferta.

O resumo dessa visão é de que não adianta se desesperar com a retomada lentíssima da economia brasileira. É preciso segurar a angústia e persistir nas reformas.

“Eu até prefiro uma retomada mais lenta, mas que seja sem atalhos, que sempre levam a novas crises”, conclui Silvia.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 20/8/19, terça-feira.