Crescimento puxado pelo consumo

Estudo de economistas do BIS (Banco para Compensações Internacionais) mostra que expansões do PIB lideradas pelo consumo das famílias - em vez do investimento ou do setor externo - são mais frágeis e menores. Este tipo de crescimento foi o modelo do Brasil na fase de ouro do governo Lula, e hoje caracteriza cada vez mais a expansão de diversas partes importantes da economia global.

Fernando Dantas

20 de março de 2017 | 17h48

Uma característica do período de ouro de crescimento do governo Lula foi a de que o consumo das famílias cresceu mais rápido do que o PIB. De 2004 a 2010, o PIB cresceu a uma média anual de 4,2%, e o consumo das famílias teve expansão média de 5,4%. Com exceção de 2004 e 2010, início e fim do período, em todos os outros anos o consumo andou à frente do PIB.

Tomando os conceitos de recente estudo do Banco para Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), trata-se de uma “expansão liderada pelo consumo”, isto é, uma fase de crescimento em que a elevação real do consumo é maior que a do PIB. O estudo do BIS, dos economistas Enisse Kharroubi e Emanuel Kohlscheen, mostra justamente que o modelo de crescimento liderado pelo consumo é bem mais fraco e frágil do que o de expansões puxadas por outros componentes da demanda, como os investimentos e o setor externo.

Os autores começam por constatar que o crescimento tem sido cada vez mais liderado pelo consumo em diversas importantes partes do mundo. Tomando um grupo de economias avançadas, eles mostram que, entre 2004 e 2007, as contribuições do investimento e do consumo das famílias (em pontos porcentuais) para o crescimento do PIB ficou em níveis relativamente próximos. Já de 2012 a 2016, a contribuição do consumo para o crescimento (bem mais modesto) do PIB foi muito maior (na verdade, os investimentos chegaram a contribuir negativamente em 2012 e 2013).

Os economistas encontram números que indicam que as expansões puxadas pelo consumo das famílias são menores que as demais. A diferença não está no consumo do governo, que tende a um comportamento similar nos dois tipos de expansão – indicando que a política fiscal não é um elemento importante na distinção –, mas sim na contribuição bem menor dos investimentos e do setor externo nas expansões movidas a consumo.

Uma questão central para os autores é a de saber se a expansão puxada a consumo leva a um crescimento menor do PIB, ou se, numa causalidade inversa, é o fato de que a expansão seja lenta que leva ao destaque do consumo.

No primeiro caso, haveria alguns mecanismos de transmissão: excesso de endividamento das famílias levando a crises financeiras ou prolongados períodos de desalavancagem; ou a reversão de “efeito-riqueza”, como a alta dos imóveis, que pode puxar o consumo inicialmente, mas depois (quando há queda) fragiliza as finanças familiares.

Eles ressalvam, entretanto, que a causalidade em teoria pode ser inversa: com baixo dinamismo econômico, os investimentos crescem pouco, mas o consumo das famílias, que é mais inercial, pode garantir alguma expansão – e neste caso, naturalmente será a parte do leão do crescimento.

Com uma série de exercícios econométricos, Kharroubi e Kholscheen chegam a uma firme conclusão em favor da primeira hipótese. Eles encontram fortes evidências de que o aumento do consumo das famílias no PIB (consequência do crescimento do consumo acima do produto) é um indicador antecedente de desacelerações, particularmente se há também alta do endividamento em geral e do peso da dívida imobiliária em particular.

O Brasil aparece em uma das tabelas do trabalho como tendo tido crescimento liderado pelo consumo de 2011 a 2014 (o estudo descarta anos de retração do PIB, como 2015 e 2016). Assim, a recomendação que os autores fazem para os formuladores de política econômica, de tentar reforçar o papel do investimento no crescimento, se aplica como uma luva para o Brasil. Expandir o consumo sistematicamente acima do PIB é uma droga política potente, mas com efeito frágeis e não sustentáveis. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 17/3/17, sexta-feira.

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