Crise bancária e nazismo

Novo estudo reforça tese de que grandes crises econômico-financeiras (no caso, focando especificamente em colapsos bancários) estimulam voto em populistas-nacionalistas de direita. O difícil é saber o que fazer diante desse fenômeno.

Fernando Dantas

17 de abril de 2019 | 10h52

É conhecida a associação entre fases da história posteriores a grandes crises econômico-financeiras e a ascensão de regimes populistas, especialmente de direita. A ascensão de populistas nacionalistas ao poder, que se se assiste em muitos países (Brasil inclusive, para muitos analistas) – momento histórico que vem na esteira da crise de 2007/2008 e da Grande Recessão que se seguiu – guarda semelhanças com a década de 30, após o crash de 1929.

Em coluna publicada no Broadcast em 2015, resumi um estudo de três economistas alemães (Manuel Funke, Moritz Schularick e Cristoph Trebesch) que indicava que crises financeiras pioram a governabilidade, estimulam a fragmentação partidária e a tensão social, e aumentam a votação de partidos de extrema-direita.

Agora, um novo trabalho dos economistas alemães Hans-Joachim Voth e Sebastien Doerr, e do economista José-Luiz Peydró, da GSE de Barcelona, faz uma ligação mais direta entre a perda de renda causada por crises bancárias na Alemanha no início dos anos 30 e o aumento da votação nos nazistas.

Os economistas publicaram um artigo sobre o trabalho no site do Fórum Econômico Mundial.

No caso específico do banco alemão Danatbank, que quebrou e era comandado pelo proeminente banqueiro judeu Jakob Goldschmidt, a ligação com o aumento do voto no Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, do movimento nazista, foi ainda mais forte. A teoria conspiratória de um sistema bancário completamente dominado pelos judeus era um dos elementos do antissemitismo nazista.

Os autores relatam como, em 1931, a partir do contágio de uma crise bancária austríaca, o Danatbank – um dos quatro grandes bancos universais da Alemanha – entrou em colapso, na esteira do calote de uma grande empresa têxtil, um dos maiores clientes da instituição. Houve corrida bancária, o Dresdner Bank também quebrou, foi decretado feriado bancário de três semanas e a Alemanha na prática saiu do padrão-ouro.

O estudo parte de um engenhoso trabalho quantitativo que usa dados sobre as relações entre os bancos e 5.600 empresas registradas em bolsa na Alemanha na época. As empresas alemãs tipicamente tinham relações muito fortes com um banco específico, e o estudo mostra como a quebra do Danatbank e do Dresdner levou a fortes perdas das empresas clientes – que reduziram fortemente suas folhas salariais. Dessa forma, as cidades com maior presença de empresas expostas à quebra dos dois bancos tiveram perda de renda significativamente maior, numa época de forte crise econômica.

A partir daí, os autores mostram como o declínio de renda ligado à falência dos dois bancos levou a um aumento muito significativo na votação no partido nazista. Cidades com declínio de renda semelhante, mas desvinculado dos dois bancos, tiveram aumento de voto nazista muito menor.

Adicionalmente, mesmo controlando pela perda de renda, o aumento da votação nos nazistas nas cidades expostas à quebra dos bancos foi ainda maior, o que os autores veem como o “canal não-econômico”. Esse efeito foi maior em cidades com histórico de antissemitismo, medido pela ocorrência de progroms na Idade Média e votos em partidos antissemitas entre 1890 e 1914.

Os economistas verificaram também que os efeitos sobre o voto nazista, na verdade, só ocorreram nas cidades expostas ao colapso do Danatbank, comandado por um judeu. Para reforçar os achados do estudo, eles verificaram ainda que casamentos entre judeus e não judeus caíram mais rapidamente em cidades afetadas pela crise bancária. Adicionalmente, essas cidades tiveram maiores taxas de deportação de judeus para campos de concentração e mais ataques a sinagogas, judeus e suas propriedades na “Noite dos Cristais”, em 1938.

O que fazer?

A devastação econômica causada por crises bancárias está na origem da visão convencional de que o governo deve intervir quando bancos entram em colapso, nos casos em que há “risco sistêmico” para a economia. A associação adicional entre esses eventos e o apoio a políticos extremistas, como indicado no trabalho de Voth, Doerr, e Peydró, só reforça o argumento convencional.

O grande problema, entretanto, é ter um setor na economia em que se realizam grandes lucros em tempos de boom, mas o Estado tem que salvar os participantes em tempos de crise. Obviamente, é difícil convencer o cidadão médio de que isso é um sistema justo.

É verdade que o protocolo oficial das autoridades, ao intervir no setor bancário em momento de risco sistêmico, é o de salvar os depositantes, e não os acionistas. No mundo concreto e complexo das finanças e da justiça, porém, é muito mais complicado fazer essa distinção do que parece.

É por isso que até mesmo economistas insuspeitos de “comunismo”, como Willem Buiter, ex-economista-chefe do Citi (hoje é assessor econômico especial do banco), já tocaram na delicadeza dessa questão, como nessa declaração no período imediato após a crise global de 2007/2008 (o link da matéria com a citação está aqui):

“É essa a realidade – grandes empresas privadas (referência, no caso, aos bancos) fazem enormes lucros privados quando as coisas vão bem e são salvas e levadas à propriedade pública temporária quando as coisas vão mal, com os contribuintes assumindo o risco e as perdas? Se é assim, então por que não manter essas atividades em propriedade pública permanente? Há um argumento antigo de que não existe nenhum motivo real para a propriedade privada de instituições bancárias que recebam depósitos, porque estes não podem existir de forma segura sem esquemas de garantia de depósito e/ou de emprestador em último instância, que são ao fim e ao cabo subscritos pelo contribuinte”.

Buiter, na verdade, não era e não é um defensor da estatização do sistema bancário, mas apenas caracterizou à época a complexidade envolvida no problema.

De qualquer modo, os economistas vêm conseguindo entender e mapear melhor o estrago que as grandes crises econômicas e financeiras causam não só na economia, mas também no tecido social e na política. Mais difícil é saber como as políticas públicas devem reagir a esse fato.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 16/4/19, terça-feira.