Crise chega à agropecuária

Especialistas do Ibre/FGV comentam problemas dos produtores rurais, que tiveram reflexo no PIB do segundo trimestre.

Fernando Dantas

05 Setembro 2016 | 16h12

A agropecuária, o setor da economia brasileira de melhor desempenho ao longo das últimas décadas, teve um resultado particularmente fraco no PIB do segundo trimestre, com a segunda maior queda (-2%) quando comparada com os subsetores de serviços e da indústria, na comparação dessazonalizada com o trimestre anterior. Em relação ao segundo trimestre de 2015, o recuo foi de 3,1%.

Daniela de Paula Rocha e Ignez Vidigal Lopes, pesquisadoras do Ibre/FGV especializadas em agropecuária, vêm chamando a atenção para os efeitos da crise econômica no setor, que tendem a comprometer o histórico de bom desempenho.

As dificuldades com a atual safra começaram desde o início de 2015, com atraso na liberação de financiamentos, juros mais altos no plano Safra, restrições na contratação de seguro real e maior seletividade dos bancos na hora de fazer empréstimos. Os produtores sentiram o impacto da crise, e se seguraram em gastos como a aquisição de máquinas agrícolas. Adicionalmente, o clima atrapalhou em regiões importantes para agropecuária, como o Sul e o Centro Oeste.

Daniela e Ignez notam que foram tantas as dificuldades enfrentadas pelos produtores rurais que as novas tecnologias de produção e os avanços na administração do negócio – marcas da agropecuária brasileira, que explicam porque a sua produtividade cresce sistematicamente a um ritmo muito superior ao dos demais setores – podem não ser suficientes para contrabalançar os problemas.

A última previsão da Conab para a safra de grãos 2015/2016 é de 188,2 milhões de toneladas, o que representa um recuo de 20 milhões de toneladas ante a safra de 2014/2015. No início do ano, a previsão da Conab era de que a safra 2015/2016 teria 2,6 milhões de toneladas de grão a mais que a anterior.
Para 2017, segundo Daniela, já se nota um ânimo melhor no agronegócio, com a superação das incertezas políticas causadas pelo processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Além disso, partindo-se de uma safra particularmente baixa, deve haver aumento em 2016/2017. Por outro lado, as perdas da última safra devem deixar os produtores mais cautelosos.

Em relação a 2015, houve manutenção no orçamento do plano Safra, mas ainda há dúvidas sobre como será a liberação efetiva dos recursos.

O plantio da safra 2016/2017 está para começar, e em breve será divulgada a primeira previsão da próxima safra pela Conab. Em termos meteorológicos, depois de um período de El Niño – mudanças climáticas associadas ao aquecimento das águas do Pacífico na costa sul-americana –, a discussão agora é sobre o possível desenvolvimento do fenômeno inverso, La Niña, que também pode trazer problemas climáticos para o agronegócio brasileiro, especialmente no Sul.

Finalmente, há a questão da logística, ligada à retomada dos investimentos em infraestrutura no Brasil. Daniela acha que, se houver um crescimento expressivo da safra 20160/2017 em relação à 2015/2016, os gargalos podem voltar a apertar. Como exemplo, ela cita a BR 163, entre Sinopse, no Mato Grosso, e Miritituba, no Pará, que ainda não está totalmente asfaltada. (fernando.dantas@estadao.com).

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publica pelo Broadcast em 2/9/16, sexta-feira.