Crônica de um déficit anunciado

Fernando Dantas

22 de março de 2010 | 20h25

 

É curioso como os fatos muitas vezes só alcançam a repercussão merecida quando efetivamente ocorrem, mesmo que tenham sido previstos, e que essas previsões sejam bastante confiáveis.

Ontem, o Banco Central anunciou que o déficit em conta corrente brasileiro atingiu US$ 3,25 bilhões em fevereiro, acima das previsões do mercado para o mês, e isso parece ter causado algum frisson. Mas o número encaixa-se no sentido geral de diversas projeções de que o Brasil está entrando numa era de grandes déficits externos. Ontem também, o BC elevou a sua projeção do déficit em conta corrente de 2010 para US$ 49 bilhões.

Em novembro, o Itaú-Unibanco divulgou um relatório em que previa um déficit em conta corrente de US$ 61 bilhões em 2010, maior que o do BC, mas não tão maior assim. O Itaú-Unibanco também previu que o déficit vai crescer até um pico (em termos de valor absoluto) de US$ 140 bilhões em 2017, ou (em termos de porcentual do PIB) de 4,9% em 2012.

Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco (que assina aquele relatório, junto com Giovanna Siniscalchi), não acha que a ampliação dos déficits em conta corrente seja uma péssima notícia. Ele acredita que ela virá acompanhada de um aumento da taxa de investimentos brasileira, puxada pelo pré-sal, pela Copa do Mundo, pela Olimpíada e por todas as outras oportunidades de negócios lucrativos na economia brasileira. Em outras palavras, o déficit crescente é financiável, em parte porque fará o País crescer mais (via aumento de investimentos) – a suposição básica, porém, é que a política econômica manter-se-á sensata.

Daí, o debate está se ramificando em duas frentes. Uma delas é a de determinar o que seria uma política econômica sensata em face da perspectiva de crescentes déficits em conta corrente. O economista Samuel Pessôa, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da FGV-Rio, vem trabalhando bastante com esse tema. Para Pessôa, é interessante examinar o caso da Austrália, país que já tem algo como duas décadas de experiência bem sucedida de combinar crescimento, estabilidade e grandes déficits em conta corrente. Parte importante da receita é a de evitar o acúmulo de dívida externa sem hedge cambial.

A outra frente do debate é a daqueles economistas que, definitivamente, não gostam da ideia de que o Brasil vá embarcar numa era de grandes déficits externos. Antes de falar nessa corrente propriamente dita, deixe-me acrescentar que Pessôa, por exemplo, acha que o caminho dos déficits é inevitável, já que o País fez uma opção política e democrática de ser uma sociedade de grandes transferências sociais e previdenciárias, o que condiciona um baixo nível de poupança interna (ou um alto nível de consumo, dá na mesma). Assim, é preciso poupança externa para investir e crescer. E absorver poupança externa é o mesmo que ter déficits em conta corrente.

Os economistas mais avessos aos déficits em conta corrente lembram que, no passado do Brasil e de muitos outros países em desenvolvimento, essa história acaba em graves crises externas. Esse grupo preferia que o Brasil tentasse de alguma forma trabalhar com uma taxa de câmbio mais desvalorizada, o que melhoraria a balança comercial e reduziria o déficit em conta corrente. Isso, por sua vez, eles dizem, aumenta os lucros do setor exportador e pode ampliar a poupança doméstica, pela ampliação dos lucros retidos. Um mix de juros bem mais baixos e câmbio desvalorizado (para chegar ao segundo é preciso pôr em prática o primeiro) pode impulsionar os investimentos e a economia, e a poupança doméstica virá a reboque. É a crença de que o investimento cria a poupança necessária para financiá-lo.

Para os que veem o déficit como inevitável, a receita que acaba de ser descrita não funciona, e é inflacionária. O governo pode até mexer no câmbio nominal, e conseguir uma desvalorização real no curto prazo. No final das contas, porém, como a tendência à valorização real persiste, esta acaba se realizando pelo aumento dos preços internos, isto é, da inflação.

Exemplifiquemos com o coco da praia, hoje à R$ 3, ou US$ 1,67 no Rio. Se o câmbio for para R$ 2,5, o coco cai para US$ 1,2, num cenário de desvalorização nominal e real. Mas se, nesse caso, o coco é reajustado para R$ 4,5 (inflação), ele passa a valer US$ 1,8. Houve desvalorização nominal, mas valorização real.

Todo o debate sobre o déficit corrente é bastante complexo, e o meu resumo é muito simplificado. De qualquer forma, esse deveria ser o grande tema do debate econômico nessa campanha eleitoral, se campanhas eleitorais realmente levassem ao debate dos temas mais crucialmente relevantes para o País.

O que não vale mais, eu acho, é fingir que o Brasil não está caminhando para ter grandes déficits externos. O déficit em conta corrente só não cresceria na hipótese indesejável de uma grande crise que nos obrigasse a fazer um ajuste drástico e doloroso nas nossas despesas de consumo e investimento; ou na hipótese, de conseqüências no mínimo incertas, de uma mudança bastante radical na política econômica.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.