Cunha e a “ditadura da conjuntura”

Octavio Amorim Neto, cientista político da Ebape (FGV-Rio), acha que eleição do novo presidente da Câmara não é "calamitosa" para o governo, mas este terá que privilegiar o PMDB na composição do segundo escalão e ampliar o suporte orçamentário aos ministérios do principal aliado.

Fernando Dantas

04 Fevereiro 2015 | 18h38

Para o cientista político Octavio Amorim Neto, a vitória de Eduardo Cunha na eleição para presidente da Câmara de Deputados “não é calamitosa, porque ele é um operador hábil que não deve jogar fogo no barril de pólvora”. Por outro lado, continua o professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape/FGV-Rio), “o governo passa a viver agora sob a ditadura da conjuntura, em que qualquer semana pode se tornar infernal”.

A derrota foi grande, diz o cientista político, porque o governo se engajou, jogou sua autoridade e foi derrotado. Para ele, o fiasco já seria problemático em quaisquer circunstâncias, mesmo com a economia em boa fase e a popularidade da presidente nos níveis muito altos do passado.

Agora, porém, tudo se torna mais grave diante do que chama de “as três crises”: o escândalo da Petrobrás, o doloroso ajuste econômico em curso e a ameaça de racionamento hídrico e de energia elétrica.

Por outro lado, Cunha sinalizou que não será “nem governo nem oposição” e que pode apoiar o ajuste econômico em curso. Dessa forma, não se pode dizer que o governo está fatalmente encurralado.

Tudo dependerá, evidentemente, da gestão da complexa e difícil relação entre o PT e o PMDB. O cientista político observa que, no pano de fundo estrutural deste relacionamento conflituoso, está a política municipal. Na sua visão, é aí que reside a maior parte do poder político e eleitoral do PMDB. Por outro lado, o PT vem crescendo nos municípios enquanto o PMDB, ainda dominante, vem perdendo terreno. A tensão desta disputa contamina a relação entre os aliados na esfera nacional.

Em termos nacionais, Amorim Neto nota que, desde o início tumultuado do governo Lula, os presidentes petistas aprenderam que é preciso integrar o PMDB ao governo. No segundo mandato de Dilma, o partido tem vários ministérios, embora reclame quanto à pouca importância de alguns, como Pesca ou Turismo.

Mas não é no ministério que o cientista político localiza os principais erros de Dilma na relação com o PMDB. Estes se situam mais na agenda de governo, e o caso mais exemplar é a proposta do Planalto de uma Constituinte da reforma política, rechaçada pelos peemedebistas quando foi levantada no auge das manifestações de 2013, mas na qual Dilma insistiu no seu discurso de posse (apenas para ser rechaçada novamente).

Além disso, Dilma não é afeita ao jogo político como Lula, e tem dificuldades de lidar com o tradicional “toma-lá-dá-cá”. Segundo relatos da imprensa, realça o cientista político, a presidente nutre uma particular aversão a Cunha, visto como um símbolo do jogo de barganha política no seu nível mais elementar (o que não significa que dispense uma sofisticada capacidade de articulação, que o deputado fluminense tem de sobra).

Amorim Neto acrescenta que, apesar da frequente “demonização” das atividades de Cunha, a sua candidatura e vitória se explicam por elementos políticos bastante tradicionais. Há duas legislaturas o Rio detém a maior bancada do PMDB na Câmara, o que dá ao Estado uma natural preponderância dentro do partido. E, neste contexto, Cunha se destaca como uma liderança muito aguerrida e que sempre coloca os interesses da sua bancada e do partido em primeiro lugar.

Para o cientista político, o poder de barganha do PMDB na sua aliança com o governo vai aumentar muito, mas o Planalto tem como reagir a essas novas circunstâncias privilegiando o partido na composição do segundo escalão e ampliando o apoio orçamentário aos ministérios controlados por peemedebistas. (Fernando Dantas – fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 4/2/15, segunda-feira.