Dá para confiar no PIB da China

Consultoria Dragonomics e Lívio Ribeiro, do Ibre, não veem razões para achar que há distorções enormes nas contas nacionais chinesas.

Fernando Dantas

21 de outubro de 2015 | 15h30

O mercado voltou a se preocupar com a China nesta segunda-feira (19/10/15), com a divulgação do crescimento do PIB de 6,9% no terceiro trimestre, comparado ao mesmo trimestre de 2014. É a primeira vez que se registra crescimento abaixo de 7% desde 2009.

Uma preocupação adicional é a desconfiança de que o desempenho da China seja significativamente pior do que os dados oficiais do PIB. Os analistas que creem nessa tese geralmente usam vários argumentos. O primeiro, claro, é que a China é uma ditadura e, portanto, tem os meios e a propensão a manipular informações em proveito da manutenção do poder do Partido Comunista.

Uma segunda linha de argumento é de que há discrepância entre os números das contas nacionais e pesquisas qualitativas como o PMI (sondagem de empresas) de manufaturas e o chamado “índice Li Keqiang”. Este índice, criado pela revista The Economist, tem o nome do primeiro-ministro chinês porque foi Keqiang quem sugeriu que os componentes do indicador – volumes de transporte ferroviário, consumo de eletricidade e empréstimos bancários – eram melhores para acompanhar o crescimento da economia chinesa do que os dados oficiais do PIB. Tanto o PMI das manufaturas quanto o índice Li Keqiang indicam crescimento bem abaixo de 7% – no caso deste segundo indicador, os últimos dados sugerem expansão da economia rodando na faixa de 3% ao ano.

Finalmente, há problemas na série dessazonalizada do PIB chinês, que é difícil de ser reconciliada com a série que compara os mesmos períodos de anos consecutivos. Isto poderia ser mais um sinal da alegada manipulação.

Apesar de todos esses argumentos, recente relatório de Andrew Batson, da Gavekal Dragonomics, conhecida consultoria sobre a China, contesta que haja grandes distorções nas Contas Nacionais chinesas. Ele inicia apontando que, apesar de funcionários de governos locais serem avaliados pelo desempenho econômico das suas áreas de jurisdição, o governo precisa de dados confiáveis para administrar a economia e naturalmente não veria com bons olhos quem tentasse enganá-lo. Muitos números ruins têm sido divulgados recentemente, como o PIB negativo em três províncias, o que enfraquece a ideia de que os dados são maquiados.

Uma segunda questão é se há erros não intencionais, devidos a questões técnicas e metodológicas. O relatório da Dragonomics faz testes com os números oficiais – uma regressão da produção industrial mensal pelos dados do PIB trimestral, a derivação da série ano a ano a partir da série trimestral dessazonalizada, e uma série em que o deflator do PIB é substituído por uma média entre os índices de preço ao consumidor e ao produtor.

A conclusão do exercício é que o viés das Contas Nacionais chinesas está mais em subestimar a volatilidade do que em superestimar o PIB. Assim, a indicação é de que o PIB foi subestimado no seu pico em 2007 e agora está superestimado, mas em nível bem moderado – o diferencial para cima e para baixo é na maior parte do tempo inferior a um ponto porcentual. A consultoria detecta que os maiores problemas estão na questão do deflator.

Lívio Ribeiro, analista de China do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre-FGV), aponta que as discrepâncias entre os números do PIB e a trajetória do PMI de manufatura e do índice Li Keqiang acontecem em grande parte porque esses indicadores estão focados na indústria e no investimento, enquanto a atual transição da economia chinesa é na direção dos serviços e do consumo. Ele nota que usando o PMI que integra manufaturas e serviços, ou incluindo as vendas a varejo no índice Li Keqiang, chega-se a trajetórias mais próximas do PIB. Ele lembra ainda que o índice Li Keqiang apontou crescimento de 10% em 2013 e de cerca de 30% em 2009. “Mas alguns analistas só usam essa métrica para questionar o PIB oficial quando ela indica menor crescimento”, ele conclui. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 19/10/15.