Dano colateral do “QE”, a injeção de liquidez dos BCs

Estudo de economistas do Fed de Nova York mostra que "afrouxamento quantitativo" subsidia empresas arriscadas mas que têm grau de investimento, que fazem más aquisições e acabam prejudicando seu setor como um todo.

Fernando Dantas

24 de fevereiro de 2022 | 12h28

Desde a grande crise global de 2018-19, os principais bancos centrais dos países avançados, como o Federal Reserve (Fed, BC dos EUA) e o Banco Central Europeu (BCE), empregaram intensamente o chamado ‘afrouxamento quantitativo’ (QE, na sigla em inglês utilizada internacionalmente).

O QE consiste na compra maciça pelo BC de títulos de longo prazo, como papéis do Tesouro e hipotecários, em poder dos investidores. A demanda ampliada por esses títulos faz com que suas taxas caiam. Reduzir taxas de juros de longo prazo é algo que um BC quer quando tem que combater baixo crescimento e risco de deflação com sua taxa básica, de curtíssimo prazo, já encostada no zero.

Mas será que o QE tem algum efeito colateral negativo?

Muitas possibilidades nesse sentido já foram analisadas e debatidas, mas um novo trabalho de economistas do Fed de Nova York (Viral Acharya, Ryan Banerjee, Matteo Crosignani, Tim Eisert e Renée Spigt) encontra e mede um problema bem específico: o QE impulsiona uma forma de subsídio a empresas no nível mínimo do grau de investimento (BBB-; mas os autores focam a categoria BBB como um todo) e com risco considerável, que se endividam para fazer aquisições que geralmente não trazem as melhoras esperadas.

A presença dessas empresas após esse subsídio acaba sendo negativa para o setor em que estão inseridas, reduzindo a expansão do emprego, os investimentos, as vendas e as margens do segmento como um todo.

Os autores chamam essas empresas arriscadas para se investir e que estão no limiar do grau de investimento de “anjos caídos prospectivos”  – uma alusão óbvia ao fato de que estão por um triz de perder o grau de investimento.

Eles notam que o segmento BBB é o que mais cresceu no mercado de bônus americano desde a crise financeira global.

“Entre 2008 e 2020, a quantidade de bônus BBB no mercado mais do que triplicou para US$ 3,5 trilhões, representando 55% de toda a dívida de grau de investimento, comparado a 33% em 2008”, escrevem os economistas.

Eles apontam ainda que, no mesmo período, os ‘spreads’ dos bônus BBB caíram de uma média de 400 pontos base (4 pontos porcentuais) para 150, sem que a lucratividade dessas empresas tenha acompanhado de forma consistente o aumento do endividamento. O paper frisa finalmente que essas características são estritamente dos papéis BBB, não ocorrendo em outros bônus com grau de investimento de melhor rating.

A relação entre esse comportamento dos bônus BBB e o QE, na explicação dos autores, é que o afrouxamento quantitativo visa justamente, ao baixar muito a rentabilidade dos papéis mais seguros, forçar os investidores na direção de títulos mais arriscados.

Mas muitos investidores, especialmente institucionais, obedecem a regras que exigem o carimbo do grau de investimento nas suas aquisições. Assim, há um afluxo de recursos para os BBB, que por serem mais arriscados oferecem as taxas mais favoráveis entre os emissores com grau de investimento.

Esse financiamento abundante levou muitas empresas desse segmento a se engajarem em aquisições e fusões, com muito oba-oba sobre sinergias e economias, mas geralmente chegando a resultados decepcionantes.

Os autores notam que a classificação das agências de risco, à medida que a situação dessas empresas ia se deteriorando, não acompanhou a piora, um comportamento das empresas de rating que eles observam ser especialmente presente depois de fusões e aquisições.

Quando veio a pandemia, as máscaras caíram. Em poucas semanas, mais empresas BBB receberam downgrade do que durante toda a crise financeira global, segundo os pesquisadores.

Eles citam como exemplo a Newell Brands, descrita como uma “gigante de produtos de consumo”, que, segundo os autores, poderia ser classificada desde 2014 como “anjo caído prospectivo”. Entre 2014 e 2017 a Newell Brands usou o financiamento barato para comprar outras empresas, como a Jarden em 2016, aumentando a relação dívida/bruta sobre EBITDA de 3 para 4,5.

A partir daí, a empresa não cumpriu as metas de desalavancagem. Entre 2015 e 2018, teve rating da S&P de BBB-, quando a medida dos pesquisadores indicaria rating de B no início desse e de CCC+ no final. Só em 2019 a Newell Brands perderia o grau de investimento.

Segundo o cálculo dos pesquisadores, entre 2009 e 2019 o QE criou um subsídio de US$ 307 bilhões para os “anjos caídos prospectivos”. Eles chamam esse subsídio de “privilégio exorbitante”, uma expressão cunhada nos anos 60 pelo presidente da França Valéry Giscard d’Estaing para se referir ao dólar e depois usada no título de um livro do respeitado economista Barry Eichengreen.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 22/2/22, terça-feira.