Day-after da perda do grau de investimento

Com as informações de hoje, boa parte do mercado da a perda do grau de investimento como favas contadas. Luiz Fernando Figueiredo e José Márcio Camargo comentam.

Fernando Dantas

05 de agosto de 2015 | 15h57

Para boa parte dos analistas, a perda do grau de investimento pelo Brasil junto a uma ou mais das três grandes agências de rating já são favas contadas. Mesmo na equipe econômica, é provável que já se trabalhe com este cenário – o que, claro, não será admitido publicamente.

Luiz Fernando Figueiredo, sócio-diretor da gestora Mauá Capital, e ex-diretor do Banco Central, (BC) considera que há 80% de chance de perda do grau de investimento.

“A maior parte do mercado acha que em seis meses vamos perder o ‘investment grade’ de pelo menos duas agências, e não estou dizendo nenhuma novidade”, ele avalia. Figueiredo acrescenta que fundos internacionais que seguem índices de mercado emergente estão ‘undeweighted’ no Brasil em função da expectativa de perda do grau de investimento e piora do risco.

A história por detrás dessa expectativa é simples, na sua visão. Nas contas do mercado, os resultados fiscais não vão dar sustentabilidade à dívida bruta no curto e médio prazo, o que a fará ultrapassar os 70% do PIB em alguns anos. Ele interpreta a redução das metas de superávit primário como o reconhecimento pela Fazenda e pelo Planejamento da impossibilidade de gerar essa sustentabilidade. “Estamos na direção certa, mas agora não mais na velocidade necessária”, resume Figueiredo.

Segundo José Márcio Camargo, economista-chefe da gestora Opus, “este governo não está conseguindo fazer o ajuste fiscal, e me surpreende que o Joaquim (Levy, ministro da Fazenda) ainda esteja lá, porque todos os sinais são de que ele não está conseguindo fazer o que tem que fazer e está perdendo o poder”. Camargo assinala que os gasto com o programa de proteção ao emprego e o aumento do acesso ao crédito consignado são contraditórios com o ajuste fiscal e monetário em curso, e indicam perda de poder de Levy.

A economia costuma surpreender, e inesperados eventos positivos poderiam mudar esse prognóstico. Pensando com as informações de hoje, porém, a perda do grau de investimento parece o cenário mais provável, o que coloca a seguinte questão: como será o ‘day after’?

Em termos simples e diretos, como observa Camargo, as consequências da perda do grau de investimento são a diminuição da demanda pela dívida do país e a redução da atratividade dos investimentos no Brasil.

Mas tanto ele quanto Figueiredo veem a perda do grau de investimento como mais uma etapa do processo de esgotamento de um modelo fiscal que pressupõe que um crescimento contínuo da receita cubra a expansão igualmente contínua das despesas públicas obrigatórias acima do PIB. Neste sentido, a perda do grau de investimento é mais uma consequência do modelo fiscal esgotado, que causará dificuldades adicionais, do que uma encruzilhada decisiva que decidirá se atual tentativa de ajuste da economia terá sucesso ou não sucesso.

É útil recapitular que Levy ingressou no governo de Dilma Rousseff como uma espécie de último baluarte perante o espectro da perda do grau de investimento. Esta ameaça latente permeou muito do esforço do ministro em ajustar as contas públicas do Brasil, e os próprios congressistas vêm fazendo muitas referências a ela quando o assunto é o embate entre o Executivo e o Legislativo pelo corte de gastos. Uma narrativa simplista, mas que está no ar, é de que o grau de investimento é uma última linha de defesa contra a deterioração total da economia brasileira.

A narrativa política que coloca todas as fichas na manutenção do grau de investimento tem sido útil como arma de barganha da equipe econômica no Congresso, mas pode se tornar um problema à medida em que o evento ganha aspecto de fato incontornável. Se o grau de investimento será perdido de toda a forma, qual a necessidade de Levy?

A história, porém, é bem mais complexa. Como explica Figueiredo, a perda do ‘investment grade’ é um reflexo da incapacidade brasileira de fazer o ajuste fiscal estrutural. É claro que o fato em si pesa e pode, por exemplo, ajudar a transformar o alto custo de capital atual – por razões cíclicas, do combate à inflação – num custo estrutural, em função de uma piora de patamar do risco Brasil mais duradoura. A economia ficará mais instável, e os ganhos sociais da ascensão da nova classe média serão perdidos em boa medida, na sua visão.

Mas o desafio anterior à provável perda do grau de investimento continuará a ser o mesmo depois que o fato ocorrer. Neste sentido, talvez mais que o fato em si, a importância do rebaixamento da categoria de risco do Brasil estará em como o governo, a sociedade e o Congresso reagem a ele. Se houver acomodação, a situação que era ruim muda para pior, mas na mesma trilha de deterioração anterior. Se for a senha para catalisar uma reação de enfrentamento do desajuste estrutural, pode até ser positiva. “O Brasil às vezes só avança depois de passar pelo pior. Quem sabe isso acontece?”, indaga-se Figueiredo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 4/8/15, terça-feira.

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