As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

De olho nas expectativas

Com o mercado em turbulência, expectativas de inflação se tornam indicador mais decisivo ainda para Banco Central mexer na Selic.

Fernando Dantas

07 Junho 2018 | 15h55

As expectativas de inflação devem ser o guia fundamental do Banco Central (BC) na atual conjuntura conturbada, na visão de um respeitado especialista em política monetária.

A curva de juros subiu como um todo e ficou mais inclinada, com a disparada em particular dos vencimentos mais longos. Na visão do profissional do mercado financeiro mencionado acima, o movimento pode ser em parte “técnico”.

“Muita gente descobriu que tinha uma posição maior do que gostaria de ter, dados os últimos acontecimentos, e quando um cara grande sai por uma porta estreita acaba deslocando muito o mercado e criando uma dinâmica perversa – porque aí mais gente passa a querer sair pela mesma porta estreita”. Já o câmbio também se move porque serve de hedge para toda a exposição em bolsa e juros dos investidores no Brasil.

Nesse contexto, o BC pode esperar sinais de mudanças nas expectativas inflacionárias para agir, mas não deve se atrasar neste movimento e pode inclusive se antecipar se ficar claro que ele virá.

Para o gestor já citado, se a curva de juros se mantiver nos atuais patamares por um período mais longo será um sinal de que é de fato uma questão de fundamentos, e não apenas técnica, sendo muito provável que isto seja acompanhando por uma alta das expectativas inflacionárias. O Banco Central não poderia se atrasar, nesse caso, na devida reação de elevar a Selic.

O gestor não acha, entretanto, que esse seja já o caso, por causa do grande hiato do produto na economia e de todo o trabalho de ancoragem das expectativas inflacionárias do atual BC.

O problema, porém, é que não se sabe onde a atual pressão sobre o câmbio – e, como derivação, sobre os DIs – vai parar. A greve dos caminhoneiros foi o catalizador da entrada mais forte da eleição nos preços dos ativos brasileiros. Caiu a ficha de que a forte rejeição da população ao atual governo não só contamina os candidatos centristas como representa um empecilho sério ao ajuste fiscal em 2019, seja lá quem for eleito.

Outro participante do mercado financeiro acrescenta que o Banco Central (BC) está com as mãos amarradas para lidar com a atual crise, que demandaria uma resposta na forma de compromissos fiscais por parte do Ministério da Fazenda. Com a governabilidade reduzida neste melancólico final de mandato e a total incerteza sobre se o próximo presidente irá de fato enfrentar a guerra de ajustar as contas públicas, essa resposta fiscal parece carta fora de baralho. Segundo essa fonte, tanto as intervenções no câmbio quanto eventuais altas da Selic seriam impotentes para controlar o mercado nessa situação.

O mais preocupante, porém, continua o analista, é que o fator eleições ainda está no início da sua precificação. Ele menciona indicador de volatilidade que ainda sinaliza, para o período mais próximo e coincidente com a eleição, relativa calma – o que, evidentemente, pode mudar.

“O BC não é mais o motorista, agora ele está sentado na cadeira de passageiro e quem assumiu a direção são os candidatos a presidente”, conclui. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/6/18, quarta-feira.