De ponto em ponto percentual se vai ao longe

Na ata da reunião de setembro, divulgada hoje, Copom mostra sua preferência por manter atual ritmo de altas da Selic, mas diz que vai até onde achar que for preciso para cumprir metas de inflação de 2022 (3,5%) e 2023 (3,25%).

Fernando Dantas

28 de setembro de 2021 | 19h45

A ata da reunião do Copom de setembro, divulgada hoje, deixa claro que o Banco Central prefere o ritmo de alta de 1 ponto porcentual (pp) por vez, mas que pretende puxar a Selic nessa toada até onde for necessário para entregar as metas de 3,5% (2022) e 3,25% (2023).

Uma ressalva é que, mesmo preferindo o ritmo de 1pp por reunião, e reforçando, como já fizera no comunicado, que essa é alta que pretende realizar na reunião de outubro, o Copom não descartou 100% uma aceleração do aperto à frente. O ritmo de 1pp aparece na ata como uma preferência “neste momento”.

Como apontou hoje em relatório sobre a ata o economista e consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, o Copom indicou que antevê levar a Selic para um nível mais alto do que aquele que se supunha até agora.

Essa sinalização está contida no trecho no qual, depois de mencionar a manutenção do atual ritmo de elevação da taxa básica, está escrito que isso se associa com “o aumento da magnitude do ciclo de ajuste de política monetária para um nível significativamente contracionista”.

Para o BC, essa é a estratégia mais adequada para assegurar a convergência da inflação para as metas de 2022 e 2023.

O cenário básico do BC, com a trajetória de Selic projetada pelo mercado (na data da reunião) e câmbio evoluindo apenas pela paridade de poder de compra (PPP), leva o IPCA para 3,7% em 2022 e 3,2% em 2023.

É um cenário no qual a Selic chega a 8,25% este ano, 8,5% no próximo e cai para 6,75% em 2023.

Schwartsman nota que, na ata, o BC indica que a Selic vai além disso. O IPCA de 3,7% em 2022 já é ligeiramente acima da meta, e, quando se computa o balanço de riscos, assimétrico na direção de mais inflação, fica claro que o pico de 8,5% no atual ciclo não entrega o serviço.

Alexandre de Ázara, economista-chefe do UBS BB, pensa que uma das mensagens importantes da ata é de que o BC não tem nenhuma restrição a continuar o ajuste da Selic em 2022, até onde julgar necessário.

Como argumentos a favor do ritmo de 1pp por reunião, o BC notou que o juro real na curva de juros já se elevou, e também fez simulações de alta da Selic, mantendo o ritmo atual, até diferentes níveis terminais.

O BC aponta que as simulações indicam que dá para chegar à meta de 2022 com degraus de 1pp, mas Ázara nota que uma mensagem subjacente a esses exercícios é justamente de que o Copom vai até o nível que for necessário no ano que vem.

O economista em particular projeta um pico de ciclo a 9,25%, que considera que pode ser suficiente para se atingir a meta de 2022.

Ele observa que a rápida convergência para a meta depois que a inflação atingiu dois dígitos entre 2015 e 2016 – o IPCA acumulado em 12 meses caiu de 10,36% em fevereiro de 2016 para 4,57% em março de 2017, quase a meta deste último ano, de 4,5%; e fechou 2017 em 2,95% – deu-se num contexto de inércia inflacionária mais forte depois de vários anos de estouro da meta para cima.

E agora, com a Covid, houve forte mudança de preços relativos que, para Ázara, é temporária e com o tempo tende a se ajustar.

Já Tony Volpon, estrategista-chefe de investimentos da gestora Wealth High Governance (WHG), considera que, nas atuais circunstâncias, levar a inflação para a meta de 2022 exigirá um sofrimento excessivo em termos de atividade econômica e emprego.

Ele pensa que o Copom errou ao levar a Selic a um patamar tão baixo em 2020 (2%), o que deixa o BC em posição incômoda e ainda em dificuldade para realinhar sua estratégia.

A insistência no discurso de atingir a meta em 2022, com uma projeção muito abaixo do mercado, segundo Volpon, faz parte desse quadro de dificuldade, dando a impressão de que o BC procura ganhar tempo antes de decisões mais cabais.

Nesse sentido, o economista julga que a ata se estende muito na justificativa do ritmo de 1pp por reunião, com a defesa de  ir mais devagar (do que com um ritmo superior) por ser suficiente para entregar a meta de 2022 e mais prudente diante das incertezas que rondam o tipo de inflação bem peculiar, e até certo ponto inédito, surgido com a pandemia.

Volpon acrescenta que, em momento mais inicial do ciclo de alta, a ideia era de ir mais rápido, o que talvez tornasse menos elevado o ponto culminante.

Ele observa finalmente que as incertezas sobre a inflação pós pandemia podem ir na direção negativa, com um novo choque altista se anunciando em petróleo e energia (para além do choque climático interno no Brasil).

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/9/2021, terça-feira.