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De volta à pinguela

Como as ações populistas de Trump no mundo, principalmente, e de Bolsonaro no Brasil, de forma complementar, estão criando uma travessia difícil para a economia brasileira no futuro a curto e médio prazo.

Fernando Dantas

04 de setembro de 2019 | 21h20

Hoje (4/9, quarta-feira) é um dia mais tranquilo para os ativos brasileiros, com bolsa em alta e dólar e curva de juros em baixa. Mas o mercado tem estado volátil. Há dias em que o dólar sobe e a bolsa cai, mas os juros ficam tranquilos. E há dias mais nervosos em que a curva também sobe, o que traz alguma inquietação quanto à continuidade do ciclo de cortes da Selic pelo BC (mesmo nesses piores dias, o corte de setembro, com jeito de ser de 0,5 ponto porcentual, continua a ser visto como seguro, pelo menos até agora).

Mas o que exatamente está acontecendo? Na verdade, o Brasil parece ter voltado à “pinguela” do governo Temer – há uma difícil travessia a fazer, a pinguela balança, dá medo de cair ou de ela se soltar, e lá embaixo os crocodilos no rio espreitam esfomeados.

O colunista ressalva que a “volta à pinguela” não é uma imagem original sua, mas sim captada em rede social, com referência à economia brasileira – mas infelizmente a autoria se apagou da memória.

A travessia é perigosa principalmente por causa do cenário internacional. Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, tem uma narrativa bem estruturada sobre esse risco que vem do mundo.

Há um esfriamento da economia global, mas este fenômeno está se dando com especial intensidade na indústria, que responde pela maior parte do comércio internacional. Tem cara de estar ligado à guerra comercial entre Estados Unidos e China, que vem se intensificando tanto em termos de retórica (especialmente por parte de Trump) quanto de medidas protecionistas efetivas.

A China, nação milenar que já enfrentou muitos desaforos ao longo de sua antiquíssima história, tem dados sinais que não se dobrará ao bullying americano.

A guerra comercial prejudica a economia americana, mas Trump prefere culpar o Fed por não fazer o suficiente no front do corte dos juros.

O presidente americano tentará se reeleger no ano que vem e uma recessão americana agora pode ser fatal para os seus planos. Seria lógico fechar um acordo com a China.

Mas populistas não costumam seguir a lógica do establishment. Rocha nota que “Trump já foi longe demais (na briga com a China) para recuar”.

Ele acrescenta que o presidente americano também tende, como Bolsonaro (que em breve entrará nesta história), a olhar apenas para o seu “eleitorado raiz”: o “blue-collar” branco do Midwest desempregado ou mal empregado, que atribui a sua decadência socioeconômica à  competição injusta do “outro”: seja o operário na China ou o imigrante ilegal latino.

Rocha observa ainda que a briga de palavras e atos entre EUA e China elevou-se tanto de intensidade que a erosão de níveis mínimos de confiança entre os parceiros pode ter tornado o acordo muito mais difícil.

Mas nunca se sabe ao certo. O acordo poderia sair na próxima semana. Isso, na verdade, é parte substancial do problema. A briga é política, geopolítica. A economia é difícil de prever, mas a política é muito mais. É por isso que a incerteza é a tônica do momento atual, refletida nos índices específicos desta faceta da psique humana, seja nos Estados Unidos, no Brasil ou em outros países. A incerteza machuca especialmente o investimento, com reflexos na indústria.

Se houver uma recessão nos Estados Unidos antes da eleição de 2020, a bolsa americana, perto dos seus recordes de alta apesar de tudo, deve cair muito. Lá, isto mexe com fundos de pensão e outras aplicações que atingem maciçamente o eleitorado. Será péssimo para Trump.

Mas também será ruim para o Brasil e Bolsonaro. Uma recessão americana faria disparar a aversão ao risco, com possivelmente o pior efeito sobre a economia brasileira: bolsa cai, dólar sobe e, principalmente, a curva de juros também embala para cima.

É verdade que o Brasil hoje está muito mais bem equipado para enfrentar a aversão a risco internacional: governo credor líquido em dólares, grandes reservas, inflação baixa, juros baixos. O problema é que não é preciso uma pneumonia para abortar a retomada brasileira em ritmo “devagar quase parando”: um resfriado mais forte já daria conta do recado.

Nesse cenário, a crise da Argentina – esta, sim, com uma pneumonia de altíssima virulência – piora a situação do Brasil, pelo canal do comércio exterior e reverberações na política.

E é aí que entra o fator Bolsonaro. O presidente – com exceção do apoio até agora à agenda econômica de Paulo Guedes – não se comporta como alguém atravessando uma pinguela oscilante, mas sim como um soldado em marcha triunfante, aclamado pela sua “torcida organizada”.

Como Trump, Bolsonaro só parece se preocupar com sua base mais fiel e aguerrida, radicalizando o seu discurso, e indiferente à corrosão de popularidade (afinal, ele não acredita em pesquisas de opinião).

Se a tempestade perfeita acontecer – combinação de aguda aversão a risco no mundo, economia brasileira abandonando qualquer esperança de retomada e popularidade presidencial em queda ainda mais acentuada –, a governabilidade pode cair perigosamente (mesmo com o “semiparlamentarismo” de Rodrigo Maia).

Há assustadoras nuvens de tempestade turvando o horizonte, mas Bolsonaro está ocupado demais com suas guerras particulares para percebê-las.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/9/19, quarta-feira.

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