Decepção na indústria

Produção industrial de outubro veio abaixo das expectativas, mas visão de como está a recuperação da economia brasileira ainda está muito nublada.

Fernando Dantas

02 de dezembro de 2020 | 20h52

A produção industrial de outubro decepcionou. Em relação a setembro, subiu 1,1%, menos que a mediana do Projeções Broadcast, de 1,4%. Em relação a outubro do ano passado, houve alta de 0,3%, também inferior à mediana, de +1,10%.

Toda as comparações com setembro são em termos dessazonalizados.

Não foi uma boa notícia sobre o ritmo da retomada da economia brasileira, embora seja cedo para desanimar. A pandemia fez de 2020 um ano muito atípico, cujos indicadores econômicos são especialmente difíceis de interpretar.

Adicionalmente, amanhã, junto com a divulgação do PIB do terceiro trimestre, haverá a revisão da série trimestral incorporando as informações da série anual.

A revisão pode mudar significativamente os números da evolução trimestral do PIB de 2018 a 2020 – e, com isso, a própria leitura do que está ocorrendo com a economia brasileira este ano.

Na indústria extrativa-mineral em outubro, houve recuo de 6% ante o mesmo mês de 2019, e de 2,4% ante setembro.

É um resultado ruim, mas a extrativa, porção menor (11,2%) da produção industrial, é mais sujeita a variações idiossincráticas, com maior significação setorial do que em relação à economia como um todo.

O problema é que a indústria de transformação, parte maior (88,8%) da produção industrial e mais sintonizada com o estado geral da economia, também decepcionou em outubro. O crescimento ante outubro de 2019 foi de 1% e, em relação a setembro, de 0,3%.

Alguém poderia dizer que, para um ano de pandemia e de grande queda projetada do PIB, o número da indústria de transformação em outubro não parece tão ruim assim.

Mas é que tem de se considerar o padrão das recessões provocadas pela Covid-19, não só no Brasil, mas no mundo todo. O setor de serviços despencou, pela impossibilidade de consumir muitos deles com o isolamento em casa. E, a partir de um certo ponto, o setor industrial embalou, pelo desvio do consumo que iria para serviços e por benefícios volumosos como o auxílio emergencial.

Assim, ainda se espera da indústria a liderança na recuperação da economia, e é nesse sentido que os números de outubro decepcionaram.

Como explica Luana Miranda, economista do Ibre/FGV especializada em atividade, o desapontamento com a produção industrial em outubro, e em especial com a indústria da transformação, foi bem disseminado entre tipos de bens (duráveis, não duráveis, intermediários, de capital) e setores.

Tomando-se o ritmo do crescimento mensal ante cada mês anterior, desenha-se uma desaceleração. Na indústria como um todo, em agosto, setembro e outubro, os números são de 3,4%, 2,8% e 1,1%, respectivamente. Na transformação, 3,4%, 4% e 1,2%.

Luana vê, como possíveis fatores explicativos da desaceleração da indústria, a redução pela metade do auxílio emergencial a partir de setembro; a insegurança das famílias sobre a situação do mercado de trabalho em 2021 – quando acabarem também os programas do governo de sustentação do emprego – e sobre a possível segunda onda da pandemia e seus impactos econômicos; e a corrosão da renda pela inflação em alta.

Rodrigo Nishida, economista da consultoria LCA, tem uma leitura um pouco mais benigna da produção industrial de outubro, embora veja alguns dos fatores citados por Luana como riscos reais para a economia, sobretudo a partir do ano que vem.

Em relação especificamente à indústria em outubro, ele destaca que o resultado geral foi parcialmente influenciado pela extrativa, em que houve um desempenho bem ruim no setor de minério de ferro, mas com menos implicações sobre a economia como um todo.

Adicionalmente, Nishida menciona que a pequena alta da indústria em outubro, comparado a setembro, já é a sexta nessa base de comparação. Assim, uma acomodação de ritmo é compreensível. Já na comparação com outubro de 2019, há algum efeito negativo de dois dias úteis a menos no mesmo mês de 2020.

Mas o argumento mais forte do economista é de que há sinais de que o principal fator de contenção da indústria recentemente esteja no lado da oferta, e não da demanda.

“Parte da frustração é que a indústria está se deparando com escassez de matérias-primas e, ligado a essa escassez, com encarecimento de insumos, e isso está dificultando que atenda a demanda e mantenha estoques”, diz Nishida.

Ele acrescenta que essa leitura é corroborada pelos indicadores de confiança da indústria, que cresceram em outubro e novembro e estão no nível mais elevado num razoável período de tempo.

Segundo Nishida, “a reação da indústria é menor do que ela gostaria de ter neste momento”.

A explicação para esse fenômeno seria a demanda aquecida por bens industriais que surgiu logo após os meses iniciais da pandemia, e que surpreendeu o setor e os analistas, não só no Brasil, mas em vários países. E ainda poderia haver algum efeito da perturbação das cadeias produtivas pela paralisação nos meses iniciais, em que quase toda a população fez quarentena.

De toda forma, tanto Luana como Nishida enfatizam as incertezas, não só em relação à evolução da economia (o economista da LCA realça os impactos que diferentes timings da vacinação em 2021 teriam na atividade e nos setores), mas também sobre a revisão da série trimestral do PIB amanhã.

Por enquanto, todas as apostas permanecem válidas.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/12/2020, quarta-feira.