Decifrando a inflação de serviços

Vinícius Botelho, economista do Ibre/FGV, acha que recente divulgação do PIB com revisões dá pistas para entender o comportamento nos últimos anos do mais resistente componente da inflação brasileira.

Fernando Dantas

04 de dezembro de 2015 | 21h14

Um dos enigmas da economia brasileira nesses anos de desaceleração e recessão é por que a inflação de serviços é tão resistente. Excluindo as supervoláteis passagens aéreas, os serviços do IPCA em 12 meses rodavam a 8,6% até outubro, praticamente no emblemático nível de 9% que vem caracterizando o indomável componente inflacionário desde os anos de boom.

Vinícius Botelho, economista do Ibre/FGV, pensa ter detectado uma peça importante do quebra-cabeça da inflação de serviços nesta última divulgação do PIB do terceiro trimestre, que foi acompanhada de amplas revisões dos últimos anos.

Ele nota que, comparando-se a série trimestral nova com a antiga, percebe-se um descolamento muito substancial no nível do item “outros serviços” no segundo semestre de 2012. No último trimestre de 2012, os outros serviços estavam 2% acima na nova série.

Botelho observa que os outros serviços das Contas Nacionais são o item que mais se aproxima do componente de serviços da inflação do IPCA – embora, evidentemente, haja diversas diferenças. A explicação é que estão nos ‘outros serviços’ vários daqueles serviços típicos de um índice de inflação ao consumidor, como serviços prestados às pessoas, alimentação, hospedagem, etc. Os outros serviços são uma espécie de ‘saco de gatos’, e contêm componentes que não estão no IPCA, como serviços às empresas, mas são um bom termômetro para acompanhar a inflação de serviços.

Segundo Botelho, a correlação desde o início de 2011 da inflação de serviços em 12 meses com a taxa de crescimento dos outros serviços, dois trimestres antes, é de mais de 50% na série nova do PIB, comparado com 38% na série antiga.

Alguns pormenores no descolamento das duas séries dos outros serviços chamaram a atenção do pesquisador. No final de 2013, a nova série chegou a ficar 4,1% acima da antiga. Na nova série, os outros serviços estão em queda desde o início de 2014; na anterior, desde o início de 2015. Finalmente, a nova série revisou para menos o tamanho das quedas em 2015 (na comparação como o trimestre anterior com dessazonalização): no primeiro trimestre, de -1,5% para -0,5%, e, no segundo, de -1% para -0,9%.

“Colocando tudo isso no liquidificador, sai uma história na qual a desaceleração dos outros serviços começou bem antes do que a gente imaginava, partindo de um nível mais alto do que se pensava, e acontece num ritmo mais lento do que se enxergava – os outros serviços estavam mais aquecidos e estão desaquecendo mais lentamente do que se julgava”, diz Botelho.

E essa história, ele continua, é bem mais compatível com o que aconteceu com a inflação de serviços no período.

Assim, o pico recente da inflação de serviços em 12 meses foi em meados de 2014. E, provavelmente não por coincidência, o último crescimento registrado dos outros serviços foi no quarto trimestre de 2013. Anteriormente, o momento de crescimento mais veloz dos outros serviços, entre 1% e 1,7%, deu-se entre meados de 2010 e 2011. E o pico anterior da inflação de serviços foi no terceiro trimestre de 2011.

O desaquecimento mais lento do que se esperava dos outros serviços, especialmente no primeiro semestre de 2015, pode ajudar a explicar, para Botelho, por que a inflação de serviços ainda está tão resistente.

Por outro lado, os dados recentes indicariam uma boa notícia para o Banco Central. Nos segundo e terceiro trimestres de 2015, os outros serviços finalmente foram atingidos com força pela recessão, tendo recuado respectivamente 0,9% e 1,8%.

“Isto indica que pode vir algum alívio na inflação de serviços no início do ano que vem”, diz o economista.

Ele acrescenta que, com a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) do IBGE a partir de 2012, consegue-se capturar melhor a trajetória trimestral dos outros serviços, o que permitirá investigar mais a fundo a correlação com a inflação de serviços, inclusive a defasagem entre o indicador do PIB e o do IPCA. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada em 2/12/15, quarta-feira.