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Decifrando Trump

Cenários da LCA incorporam o efeito da economia do presidente eleito dos Estados Unidos.

Fernando Dantas

22 Novembro 2016 | 11h17

Analistas do mercado financeiro e das consultorias vêm tentando digerir as consequências da eleição de Donald Trump para a economia global, e, em particular, para a brasileira. Como tem sido amplamente comentado, não é um exercício fácil, uma vez que o presidente eleito não é um típico republicano, mas sim um gênero de populista que representa uma novidade política nos Estados Unidos. Assim, as políticas econômicas que pode vir a adotar têm um grau de imprevisibilidade maior do que as implementadas nas gestões de ambos os principais partidos norte-americanos por muitas décadas.

A incerteza, entretanto, não paralisou o mercado no exercício de antecipar para as cotações dos ativos as percepções sobre o futuro. O que está sinalizado na alta dos juros norte-americanos e do dólar é mais crescimento, mais inflação e, provavelmente, aperto monetário pelo Federal Reserve (Fed, BC) que poderia derrubar a economia na sequência.

A previsão de maior crescimento vem da noção de que anúncios feitos por Trump e sua equipe em formação – como cortes de impostos e investimentos em infraestrutura – vão levar a um forte aumento do déficit público. Isto, por sua vez, configura ironicamente um impulso fiscal keynesiano, pelo qual vêm clamando há muito tempo alguns economistas de filiação democrata, como o prêmio Nobel Paul Krugman. Adiciona-se à receita de bolo medidas protecionistas que podem ter efeitos inflacionários, por restringir a oferta de produtos.

Em relatório em que busca incorporar o “choque Trump” nas suas projeções macroeconômicas, a consultoria LCA nota, de início, que o nível de incerteza global já estava alto para padrões históricos mesmo antes da vitória de Trump e, naturalmente, fica ainda mais elevado depois da eleição. Assim, a consultoria aumentou de 25% para 35% a probabilidade de ocorrência do seu “cenário adverso”, no qual o PIB brasileiro recua 3,7% em 2016 e volta a cair 1,1% em 2011. Já no cenário base (a que a consultoria atribui 60% de probabilidade), a eleição de Trump provocou uma redução na projeção do PIB de 2017 de crescimento de 1,5% para 1,1%.

A LCA vê duas ramificações principais para a economia global pós-Trump. A primeira é basicamente o quadro anteriormente mencionado nesta coluna, pelo qual o “pacote Trump” traz num primeiro momento mais crescimento e inflação. Em seguida, o Fed acelera a normalização monetária em curso (isto é, aperta mais rápido, algo de que já há sinais por parte de sua cúpula), levando a uma forte desaceleração ou mesmo uma recessão nos Estados Unidos em 2018 ou 2019.

A segunda vertente é aquela em que o aumento da incerteza política e econômica nos Estados Unidos queima etapas e leva direto a uma desaceleração forte (sem a fase de mais crescimento e inflação). Neste caso, a gradualíssima normalização monetária americana prosseguiria em moldes semelhantes aos atuais.

A LCA observa em relatório que o cenário base para a economia global “ passa, a partir de agora, a combinar elementos dessas duas ramificações – e liquidamente isso significa um cenário mais deteriorado do que aquele que vínhamos projetando”.

É interessante notar, contudo, que é a primeira ramificação, que inclui a fase de crescimento-inflação-alta de juros, o maior risco para o Brasil. A própria consultoria nota que “são mudanças no canal financeiro – via elevação mais célere dos juros longos nos EUA e aumento da percepção de risco das economias emergentes, dentre outros condicionantes – as que tendem a ser mais relevantes para afetar nossa economia nesse novo quadro”.

O relatório da LCA traz também algumas considerações sobre como o Banco Central de Ilan Goldfajn reagiria a um “efeito Trump” mais forte e danoso: se retardando mais o relaxamento da política monetária para manter seus atuais objetivos de inflação; ou acomodando o choque, com utilização da margem de tolerância da inflação (de até 6%) e “admitindo alongar um pouco mais, no tempo, a convergência da inflação para o centro da meta”.

De qualquer forma, a consultoria desenha um ambiente bem mais “desafiador” – para usar o eufemismo da moda – para o BC, em que, no cenário base, o câmbio fecha em R$ 3,45 no final de 2017, e, no cenário adverso, chega na mesma data a R$ 4,4. No primeiro cenário, a Selic cai para 11,75% no final do próximo ano, mas, no adverso, fecha 2017 em 15%, um ponto percentual acima do nível atual.

Como já apontado, a LCA atribuiu uma probabilidade de 35% de ocorrência do cenário adverso. Já Nate Silver, o papa das pesquisas nos Estados Unidos, atribuiu logo antes da eleição uma probabilidade de 30% de Trump ser eleito, e deu no que deu. É bom estar preparado para o pior. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/11/16, sexta-feira.