Deflação global de insumos

Há uma deflação global de insumos industriais, o que traz vantagens e desvantagens para a economia brasileira.

Fernando Dantas

02 de abril de 2015 | 16h52

O mundo vive forte deflação de insumos industriais, que se reflete nos índices de preços ao produtor (IPP). Na China, o IPP acumulado em 12 meses apresenta deflação de 4,8% e está em território deflacionário desde 2012. Nos Estados Unidos, a inflação dos produtos intermediários processados foi de menos 0,6% em fevereiro, nas sétima queda mensal consecutiva. Já os preços dos intermediários não processados recuaram 3,9% em fevereiro, a quinta leitura negativa consecutiva.

O PPI britânico por sua vez, excluindo as indústrias de alimentos, bebidas, tabaco e petrolífera, recuava cerca de 3% em 12 meses, tendo entrado em território negativo em meados do segundo semestre de 2013. No Brasil finalmente, os materiais para manufaturas do IGP-M apresentam recuo acumulado em 12 meses de cerca de 1,7%.

O comportamento desses índices reflete o excesso de oferta global de commodities e insumos industriais processados (que afeta também os produtos manufaturados finais). Este fenômeno, por sua vez, é relacionado por diversos analistas tanto à fraqueza da economia do mundo rico e à desaceleração em grandes emergentes quanto ao excesso de oferta industrial da China.

Em relação ao Brasil, o excesso de oferta global apresenta vantagens e desvantagens. Por um lado, reduz a transmissão inflacionária primária da alta do câmbio para os produtos comercializáveis internacionalmente (tradables). No caso das commodities, obviamente a queda dos preços compensa os efeitos da depreciação. Já nos bens industriais torna-se mais difícil repassar para o preço em reais toda a desvalorização ocorrida. A atenuação do chamado “pass-through” foi enfatizada pelo Banco Central (BC) no Relatório Trimestral de Inflação (RTI) divulgado no final de março.

Tudo o mais constante, um menor pass-through cambial aos tradables diminui a intensidade da política monetária necessária para evitar a contaminação inflacionária dos non tradables, fundamentalmente serviços.

Por outro lado, o excesso de oferta global de tradables torna mais difícil para o Brasil tanto realizar o ajuste de preços relativos (o que corresponde à inflação dos tradables manter-se acima da inflação dos non tradables por um período razoável) quanto, supondo que a correção seja realizada, reacelerar a economia pela via do comércio externo.

Salomão Quadros, especialista em inflação da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio, acredita que a deflação global dos insumos industriais deve se atenuar com a recuperação da economia americana e tênues sinais de que a Europa pode sair do fundo do poço com a agressiva política monetária de expansão quantitativa do Banco Central Europeu (BCE). A China está em um gradual processo de desaceleração, mas, supondo-se que a transição de modelo econômico seja bem sucedida, não deve comprometer uma lenta melhora da economia global.

Somada à forte depreciação do real, alguma retomada do crescimento mundial pode dar alento à indústria brasileira, diz Quadros, embora para ele esteja menos claro como isso afetará o comércio exterior. De qualquer forma, o outro lado da moeda é fortalecer o pass-through, o que exigirá uma política monetária mais vigilante por parte do Banco Central (BC).

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 30/3/15, segunda-feira.

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