Demanda forte nos EUA

Apesar de número decepcionante do PIB no 2º tri, economia americana está aquecida e perspectivas de crescimento continuam vigorosas.

Fernando Dantas

04 de agosto de 2021 | 10h49

O PIB dos Estados Unidos cresceu 6,5% em termos anualizados no segundo trimestre, dado divulgado na semana passada. A expectativa mediana do mercado estava em torno de 8,5%.

Mesmo abaixo do projetado, a economia americana cresceu bem nessa última divulgação. Ainda assim, somada aos temores com a variante delta do coronavírus, a expansão levemente decepcionante no segundo trimestre poderia induzir alguma preocupação quanto ao ritmo da retomada dos Estados Unidos, importante motor da economia global.

Na visão de uma corrente de analistas, entretanto, a surpresa negativa na atividade norte-americana no segundo tri não representa uma queda de demanda, e pode ter sido causada pelas muito comentadas restrições de oferta nesta fase de saída da pandemia.

Samuel Pessoa, chefe da pesquisa econômica do Julius Bär Family Office e pesquisador do Ibre-FGV, observa que o crescimento do consumo dos EUA no 2º tri esperado pelo mercado era de 10,5%, e o indicador veio em 11,8%.

Significativamente, acrescenta o economista, houve forte elevação do consumo de serviços, de 12%, o que sinaliza uma gradativa normalização da demanda. Ele ressalva, porém, que ainda há desequilíbrio. Tomando-se como ponto inicial o quarto trimestre de 2019, no qual o consumo e seus componentes registram valor de 100, no 2º tri de 2021 o consumo total chegou a 103, o de bens a 118, mas o de serviços ainda está em 97.

É verdade, ressalva Pessoa, que houve no segundo trimestre redução anualizada de 9,8% no investimento residencial, o que levou os investimentos como um todo a terem um avanço (anualizado) relativamente modesto de 3%. O investimento não residencial cresceu 8%, sempre em termos anualizados.

Mas o analista aponta que os investimentos em residências se encontram em um nível bem elevado (dados do 2º tri de 2021), de 16% acima do patamar do quarto trimestre de 2019. Com o recuo do indicador no 2º tri, o avanço ante o 1º tri de 2019 diminuiu para 16%, mas ainda é substancial.

Em termos externos, houve “vazamento” de demanda para o exterior, como exportações líquidas negativas subtraindo 0,7 ponto porcentual (pp), em termos anualizados, do resultado do PIB trimestral. Também houve acumulação de estoques que tirou outra fração, no caso de 1,6pp, do PIB dos EUA no segundo tri – aliás, no primeiro tri também houve esse efeito negativo dos estoques.

Nas contas de Pessoa, a absorção doméstica nos Estados Unidos – consumo, investimento e gastos do governo – teve elevação de quase 10% no segundo trimestre.

“Essa divulgação não altera o cenário de retorno da economia americana para a tendência que vigorava antes de crise em algum momento na virada de 2021 para 2022, ou no primeiro semestre de 2022”, ele projeta.

Como também indica Pessoa, o resultado contido do PIB dos Estados Unidos no 2º tri pode também ter sido motivado pelo gargalo produtivo e logístico global que se verifica na saída da pandemia nas cadeias produtivas de bens e de commodities (e que também é um dos combustíveis do surto global de inflação) .

“Certamente a carência de matéria prima que tem afetado a indústria de transformação deve ter contribuído para o resultado abaixo do esperado nos Estados Unidos”, avalia. Também no recuo no investimento habitacional e nas dificuldades no setor de construção civil ele vê as digitais das restrições de oferta pós-pandemia.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/8/2021, terça-feira.