Demanda ou oferta?

Duas das maiores empresas financeiras globais, Bridgewater e BlackRock, tem visões opostas sobre causas do surto inflacionário mundial.

Fernando Dantas

04 de fevereiro de 2022 | 11h08

Demanda ou oferta? O que está por trás do atual surto de inflação global, associado à pandemia? Façam suas apostas, porque em recentes relatórios duas das mais famosas empresas financeiras globais, em relatórios, deram respostas diametralmente opostas a essa pergunta.

Luciano Sobral, economista-chefe da gestora Neo Investimentos, que também atende nas redes sociais pela alcunha de “Drunkeynesian”, chamou a atenção para o contraste de visões em sua conta do Twitter.

A Bridgewater, maior fundo de hedge do mundo, informa que o problema da inflação é fundamentalmente de demanda. A BlackRock, maior gestora de recursos do mundo, diz que é oferta.

Começando pela Bridgewater, há o relatório “É Basicamente um Choque de Demanda, não um Choque de Oferta, e ele está em Toda a Parte”, de outubro do ano passado, assinado por Greg Jensen, Melissa Saphier e Steve Secundo.

O texto fala bastante do “MP3” (Monetary Policy 3) que, segundo a definição de Ray Dalio, fundador da Bridgewater, é um conceito que significa “a coordenação da política monetária e fiscal de uma maneira que não vimos no nosso tempo de vida [esse texto específico é de 2019) mas que já existiu em formas diversas no período de vida de outras pessoas em lugares distantes”.

Já o relatório de Jensen, Saphier e Secundo, de outubro do ano passado, está escrito que “a resposta de MP3 que nós vimos em reação à pandemia mais do que compensou as rendas perdidas devido às quarentenas disseminadas, mas sem compensar a oferta que essas rendas estavam produzindo”.

Eles notam que isso é diferente da reação pós-grande crise global – que chamam de MP2, afrouxamento quantitativo; MP1 é política monetária convencional –, que não foi inflacionário.

Agora, porém, a combinação de expansão fiscal com política monetária convencional e não convencional expansionista, o MP3, está, segundo a Bridgewater, criando um excesso de demanda persistente por matérias primas, energia, capacidade produtiva, estoques, habitação e trabalho.

Eles levam em conta o desvio de demanda de serviços para bens da pandemia e o fato de que esse fenômeno vai retroceder. Ainda assim, dizem, a demanda agregada vai permanecer em nível muito elevada.

Em termos de bens, por exemplo, os economistas mostram que a produção global para consumidores americanos já está quase 5% acima do nível pré-pandemia, mas a demanda subiu 20%.

Assim, os analistas consideram que o foco em gargalos específicos (porto de Los Angeles, carvão na China, gás natural na Europa, semicondutores globalmente, caminhoneiros no Reino Unido) oculta a raiz macroeconômica pelo lado da demanda da alta inflacionária.

A visão da BlackRock em relatório de janeiro deste ano, já a partir do título – “Um Mundo Moldado pela Oferta –, explode de frente contra a da Bridgewater.

Segundo o relatório assinado por Elga Bartsch, Jean Boivin e Alex Brazier, “nós entramos numa era em que as restrições de oferta são a força motriz da inflação, em vez do excesso de demanda.

Os autores argumentam que, na saída da pandemia, é mais fácil normalizar a demanda do que a oferta, que é restringida pelos elos mais fracos da cadeia produtiva.

Eles notam ainda que o maciço desvio de demanda da pandemia, de serviços intensivos em contato humano para bens, acabou criando gargalos de oferta em alguns setores e excesso de capacidade em outros. O problema, acrescentam, é que os preços tendem a subir mais rápido por gargalos do que a cair por capacidade ociosa, e a resultante é inflacionária.

A transição energética, que vai elevar os preços da energia, piora a situação, trazendo mais pressões inflacionárias. Outro fator citado é a redução das importações baratas da China, pela freada na globalização e o envelhecimento da população chinesa (que reduz a oferta de mão de obra barata).

Essas visões conflitantes sobre as causas da inflação no mundo têm, claro, implicações diferentes para a política monetária.

No caso da BlackRock, há uma recomendação específica no relatório para que os bancos centrais não exagerem no remédio de juros para conter a demanda, porque isso não funcionará contra uma inflação puxada pela oferta, e pode acabar arrebentando demais as economias sem resolver o problema inflacionário.

Já o relatório da Bridgewater é menos explícito em termos de recomendações, mas termina com um alerta indireto: “A defasagem entre demanda e oferta é agora grande o suficiente para que a haja inflação razoavelmente sustentada, particularmente por que a política [monetária] extremamente frouxa está estimulando mais demanda em vez de contraí-la”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/2/2022, quinta-feira.