Democracia, política e economia nas eleições

Diante das ameaças autoritárias de Bolsonaro, democracia e política serão temas centrais das eleições. Mas fracasso econômico do período pós-redemocratização é parte muito importante do pano de fundo da atual crise política.

Fernando Dantas

14 de janeiro de 2022 | 19h08

A tumultuada cena política brasileira desde o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 colocou com mais força em cena a questão da própria democracia.

Com Bolsonaro, o arcabouço democrático vem sendo clara e flagrantemente ameaçado, a ponto de o debate ser sobre até que ponto as instituições têm (ou não) o poder de controlar as intenções autoritárias do presidente.

Porém, mesmo durante o governo petista havia críticas – equivocadas, na visão deste colunista – ao que seria uma veia autoritária, manifestada em discursos sobre regulamentação da imprensa ou o apoio a ditaduras latino-americanas.

O fato é que, a partir do terremoto das manifestações de 2013, há uma espécie de crise permanente, alternando momentos crônicos e agudos, do funcionamento da democracia brasileira.

Nas eleições deste ano, é bem possível que o tema da democracia adquira grande importância, com os candidatos tentando atribuir uns aos outros projetos autoritários. Uma outra faceta da mesma tendência é que a política deve ser colocada num plano superior a outros temas.

Em outras palavras, depois da devastação institucional provocada por Bolsonaro, pode até parecer uma preocupação menor realçar questões mais técnicas relacionadas à gestão e política econômica.

É certo que o furor anticiência do presidente na pandemia aumentou o prestígio do conhecimento especializado, mas é muito improvável que esse sentimento se estenda além da área médica, na direção de questões envolvendo políticas econômicas e sociais.

Em parte, a nuvem de fumaça que a candidatura favorita de Lula está lançando sobre o tema da política econômica – e que tem sido criticada por esta coluna – pode derivar de uma percepção taticamente correta do ex-presidente de que detalhar propostas agora importa muito pouco.

Para a maioria dos brasileiros que considera o atual governo ruim ou péssimo, a prioridade máxima é derrotar Bolsonaro. É verdade que a péssima situação econômica das famílias é um dos principais causas dessa postura, mas aqui entra a percepção simplista, mas compreensível, de que a solução é a receita contrária.

Faz sentido a informação, que circulou na imprensa, de que Lula, no pouco que pretende sinalizar agora de sua plataforma econômica, queira simplesmente que ela seja “anti-Guedes” – e, portanto, antiliberal. O candidato petista entende que o fato de que encarne o contrário absoluto de Bolsonaro é seu maior trunfo.

Ao se aproximar de Geraldo Alckmin, mas simultaneamente dar carta livre para que auxiliares mais à esquerda assustem o mercado com propostas econômicas heterodoxas e populistas, Lula põe suas fichas na centralidade da política neste ciclo eleitoral. Parece querer tranquilizar a sociedade quanto à questão democrática, mas achar desnecessário fazer o mesmo na economia.

Embora faça sentido do ponto de vista eleitoral, essa estratégia de Lula talvez peque em termos de diagnóstico da crise democrática brasileira.

Em 2013, multidões foram às ruas mesmo num momento em que a fase de ouro do período petista, ainda que já passado o auge, perdurava. Uma interpretação bastante comum foi de que, para além do aumento de consumo proporcionado por aqueles tempos de vacas gordas, a população exigia bens públicos, muito mais complicados de prover: transporte, urbanismo, segurança, educação e saúde de qualidade etc.

Em 2015, a crise econômica sobreveio e os brasileiros perderam o consumo, sem ganhar os bens públicos. Até hoje, essa situação não mudou, a não ser para pior. Hoje vive-se um momento agudo de carências de todos os tipos.

2013 indica que, mesmo antes da crise política manifesta, já havia uma crise política potencial, estrutural: uma democracia num país emergente com grande parte da população pobre que, por várias décadas, mostrou-se incapaz de engrenar um processo de crescimento sustentado que garantisse uma melhora contínua de padrões de vida, convergente para a realidade do mundo avançado.

A crise da democracia brasileira, portanto, tem um enorme componente econômico-social. Ainda que seja possível ganhar a eleição apenas acenando com o fim do desespero da era bolsonarista, passado o pesadelo a sociedade vai retornar aos seus anseios e demandas habituais.

Dessa forma, ter um diagnóstico realista das terríveis travas ao desenvolvimento no Brasil e preparar a sociedade – seja no campo das alianças políticas, seja esclarecendo o eleitorado sobre o que precisa ser feito – é fundamental para qualquer candidato que queira não apenas ganhar, mas também ser bem-sucedido em governar.

O Brasil, de certa forma, empacou em 2013, e o próximo presidente do Brasil terá de lidar com isso. É melhor que o faça já durante a campanha.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/1/2021, quinta-feira.