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Desaceleração na China

O economista Livio Ribeiro, da Firjan, que vem se dedicando à análise da China, diz que mercados imobiliário e de crédito estão por trás de desaceleração que pode levar país asiático a não chegar a 7% de crescimento em 2015

Fernando Dantas

15 de janeiro de 2015 | 11h14

A China não deve atingir a meta de crescimento de 7,5% este ano, ficando em 7,3%. Para 2015, há indicações de que o país não alcance uma eventual meta (o número oficial ainda não foi fixado pelo governo) de 7%, devendo registrar algo na faixa de 6,8% a 6,9%. As projeções são do economista Livio Ribeiro, chefe da Divisão de Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan). Ribeiro vem se dedicando ao estudo da economia chinesa há alguns anos, e intensificou este trabalho desde maio do ano passado. Caso a meta de crescimento este ano não seja cumprida, será a primeira vez que isto ocorre desde 1999.

O economista nota que a transição econômica anunciada pelo governo chinês, na direção de um padrão de crescimento mais saudável e sustentável, está de fato ocorrendo e afeta principalmente os mercados de crédito e imobiliário. Para ele, esses dois setores “não só são relevantes para explicar a desaceleração recente como sugerem perspectivas mais fracas no futuro próximo”.

Segundo Ribeiro, uma discussão chave no atuaL debate sobre a economia chinesa é se há ou não uma bolha no mercado imobiliário. Embora discorde desta tese, o economista menciona que os fatores que estariam por trás de eventuais bolhas – para quem acredita nisso – são o financiamento abundante, o excesso de alavancagem e as expectativas de vendas superdimensionadas por parte das construtoras e incorporadoras. Ele ressalva, portanto, que o problema está muito menos no lado da demanda, já que as expectativas de preços estão contidas e as famílias estão pouco alavancadas.

Na visão do economista da Firjan, justamente por se tratar de problema pelo lado da oferta das empresas do setor imobiliário, o governo chinês possui boa margem de manobra para estimular o mercado pelo lado da demanda, podendo reduzir ou mitigar os efeitos da consolidação do setor sobre o resto da economia.

Ele observa que já há ações nesse sentido. Mais de 30 cidades flexibilizaram as exigências para a compra de residências e o Banco do Povo da China (banco central) e a Comissão de Regulação Bancária da China tomaram medidas para diminuir o custo das hipotecas.

Ribeiro acrescenta que há poucas evidências de recuperação do preço do mercado imobiliário, com numerosos indicadores apontando arrefecimento disseminado. Em outubro e novembro, houve retração dos volumes de transações imobiliárias, tanto em construções quanto em vendas. O mercado de crédito, por sua vez, continua a desaceleração dos últimos meses, em especial o chamado “shadow-banking”, a intermediação financeira não-bancária. Em reação, o governo em novembro baixou taxas de depósitos e empréstimos – pela primeira vez desde 2012.

Os dados econômicos de outubro e novembro levaram Ribeiro a projetar um crescimento no primeiro trimestre de 2015 de apenas (para a China) 7% em termos anualizados – se correta a previsão, será a taxa mais baixa desde o início de 2009, em plena crise global.

Para o analista, o governo chinês prossegue no “ajuste fino” do processo de desaceleração da economia, com medidas como redução de juros, flexibilização da remuneração bancária e os primeiros movimentos na direção de um sistema de seguro de depósitos bancários. Um crescimento em torno de 7% seria compatível com o ajuste da economia à desaceleração da demanda externa e ao aumento do consumo doméstico. Para Ribeiro, essa estratégia deve produzir um crescimento menor, porém, mais equilibrado, já em 2015. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 12/1/15, segunda-feira.

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