Desafio de Dilma é maior que o de Lula

Fernando Dantas

21 de novembro de 2012 | 18h57

É uma excelente notícia a declaração da presidente Dilma Rousseff, em entrevista ao jornal Valor Econômico, de que quer colocar todo o dinheiro dos royalties do petróleo em educação. Talvez mais do que o dinheiro em si, cuja destinação final dependerá do Congresso, o que importa mesmo é que a presidente comprou a ideia de que a educação básica é absolutamente imprescindível na etapa de desenvolvimento econômico em que o Brasil se encontra.

Os diagnósticos que vêm da fala presidencial mostram que houve de fato uma convergência de ideias entre as correntes mais à direita e mais à esquerda do pensamento econômico nacional. Eleita por um partido de esquerda, Dilma defende hoje a primazia da formação do capital humano e a participação do setor privado nos projetos de infraestrutura, incluindo o financiamento de longo prazo, que não deveria ficar apenas nas mãos do BNDES.

Em relação ao “tripé macroeconômico”, a presidente – em harmonia com os membros da equipe econômica – afirma que ele está mantido, mas vem sendo administrado com pragmatismo. É difícil, portanto, conciliar o discurso do governo com a ideia de que Dilma está reeditando a era Geisel e apostando suas fichas num modelo estatizante e autárquico. Não há tanta diferença assim entre o que a presidente diz e o que um economista moderadamente ortodoxo defenderia.

O problema, porém, é que os desafios econômicos à frente do Brasil exigem mais do que boas intenções e um discurso correto. A surpreendente freada da economia em 2011 e 2012 pode representar uma nova etapa em que, ao contrário dos anos dourados de 2004 a 2010 (com a interrupção de 2009), não será tão fácil crescer.

Diversos fatores impulsionaram a economia durante a maior parte do governo Lula. O trunfo principal foi o boom das commodities, puxado por uma fase de expansão particularmente veloz da China e de outros países asiáticos. Outra vantagem é que o Brasil iniciou aquela fase com um câmbio desvalorizado e competitivo, fruto do ajuste traumático de 2002 e 2003.

O crédito, por sua vez, pôde se expandir à grande velocidade, já que – especialmente nas modalidades ligadas ao consumo – partiu de bases muito baixas. Houve ainda o efeito no mercado de trabalho das melhoras quantitativas da educação nos anos 90 e no início da década passada, quando praticamente todas as crianças passaram a cursar o Fundamental e os anos médios de estudo da força de trabalho aumentaram. Este impacto ajuda a explicar uma
parte considerável do viés pró-pobre do crescimento a partir de 2004, que também foi reforçado pela política de transferência de renda e de aumentos reais do salário mínimo.

Mundo mudou

O início do governo Dilma viria a colher ainda a cereja no bolo das melhoras sociais e econômicas, com a queda do juro real básico para níveis civilizados, um antigo e aparentemente invencível desafio da economia brasileira. Dessa forma, todas as peças pareciam estar arranjadas para anos de expansão estável na faixa de 4% a 4,5%, que se acreditava ser o crescimento potencial ao final do governo Lula.

Todo esse quadro promissor começou a se desarrumar com a constatação de que, após a fase aguda da crise, o mundo não retornaria à exuberância econômica do período pré Lehman Brothers. Os países ricos arrastam-se num ritmo entre o baixo crescimento e a recessão que lembra a experiência do Japão, que jamais se recobrou do estouro da sua bolha na transição entre os anos 80 e 90. E, agora, mesmo os principais emergentes também desaceleram.

Com isso, o pico da alta das commodities parece ter ficado para trás, o que não augura bem para economias, como a brasileira, que foram fortemente impulsionadas pelo boom das matérias-primas. E, desta vez, o País e seu parque industrial foram pegos com o câmbio valorizado e um elevadíssimo custo unitário de trabalho, frutos do sobreaquecimento via explosão de consumo da nova classe média, que provocou inflação no setor de serviços, onde não há oferta externa. O crédito, por sua vez, já se aproximou de limites perigosos, como demonstra a persistência da inadimplência em níveis bastante altos.

Na educação, enfrenta-se o problema muito mais espinhoso de fazer os jovens completarem o ensino médio e de elevar a qualidade do ensino básico como um todo. E, somando-se a tudo isso, há o desafio de expandir e melhorar a infraestrutura, incluindo prover serviços públicos de qualidade para a nova classe média, que começa a perceber que o bem-estar não se resume ao consumo de alimentos, roupas, eletrodomésticos e serviços pessoais.

Agenda pesada

Dilma, portanto, encara uma situação muito diferente, e muito mais difícil, do que aquela que o ex-presidente Lula teve à frente na maior parte do seu governo, em termos econômicos. O fato de que o mercado de trabalho e a renda mantiveram-se  em alta nos dois primeiros anos do mandato da presidente dá ao governo um colchão de popularidade, mas está claro que este ‘milagre’ tem prazo de validade se a economia não rearrancar.

Diante desse quadro angustiante, Dilma e a equipe econômica mantêm o discurso correto, mas não resistem ao hiperativismo discricionário das medidas tributárias, creditícias e tarifárias de estímulo. No fundo, é como se o governo quisesse, com diversos passes de mágica, voltar à era Lula de crescimento fácil.

O problema é que a conjuntura, tanto interna quanto externa, mudou, e provavelmente é preciso uma série de mudanças estruturais muito mais profundas e incômodas para reeditar o sonho do crescimento rápido. Seja na educação, na infraestrutura, no investimento público, na tributação ou no manejo correto do tripé macroeconômico, o governo tem à frente uma agenda pesada e politicamente desgastante. O discurso da presidente Dilma Rousseff aponta na direção correta, mas ela precisará de muito mais do que palavras adequadas para sair vitoriosa do desafio que Lula lhe legou.

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