Desafio do BC na largada

Mercado espera que novo BC baixe logo os juros. Mas e a inflação que pode estourar o teto de tolerância este ano e ainda ficar razoavelmente longe no próximo?

Fernando Dantas

10 de maio de 2016 | 16h48

O IPCA de abril, de 0,61%, que veio acima das expectativas de mercado, é mais uma peça do complicado quebra-cabeças que o novo Copom – tudo indica que Temer, chegando à presidência, mudará o presidente do Banco Central, após breve período de transição – terá de enfrentar logo na largada.

Como nota o consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, em relatório divulgado hoje depois da divulgação do IPCA, uma redução da Selic logo é o “mais profundo desejo do mercado”, mas pode não ser do melhor interesse do novo Copom.

Traduzindo em números a ferina linguagem de Schwartsman, o mercado de juros precificava hoje no final da manhã uma queda de 1,75 ponto porcentual da Selic até o fim do ano, para 12,5%, a ser iniciada com corte de 0,25 pp em julho.

Por outro lado, como observa Alexandre Póvoa, presidente e sócio fundador da gestora Canepa, não será tarefa trivial para o novo presidente do BC presidir suas quatro primeiras reuniões do Copom (supondo uma transição em que o atual presidente, Alexandre Tombini, ainda esteja no posto na reunião de junho) com cortes dos juros, quando as expectativas ainda indicam alta probabilidade de que o IPCA rompa o teto de tolerância de 6,5% este ano, e que, mesmo caindo, ainda fique razoavelmente distante da meta de 4,5% em 2017.

Por outro lado, Marco Franklin, sócio da gestora Platina Investimentos, observa que há um conjunto de fatores que podem puxar para cima a inflação este ano, mas dar um alívio em 2017 – um cenário que seria compatível com o início de afrouxamento monetário em 2016, se não fosse pelo aspecto constrangedor descrito acima, num momento em que o novo Copom deveria estabelecer suas credenciais de credibilidade.

Franklin lista como fatores altistas este ano aumentos de impostos nas esferas federal e estadual; e questões ligadas a clima e safras que puxam para cima milho, soja e açúcar e, indiretamente, via preço dos grãos, as rações animais. Em 2017, a sua análise indica que essas pressões devem se abrandar. Uma mudança de metodologia no preço de mão de obra doméstica e para reparos domésticos, vinculando-as ao salário mínimo, também deve ter o mesmo efeito altista este ano e de algum alívio no próximo.

Assim, desenha-se um cenário no qual talvez o momento mais difícil para o novo Copom seja justamente a hora da largada. Será preciso administrar, de um lado, as expectativas de queda do juro básico diante da monumental recessão e dos níveis elevados de juros reais que a prevista queda de inflação produziria diante do atual patamar da taxa básica. E, do outro, a construção da credibilidade da nova equipe no comando da política monetária, diante de um possível ciclo de relaxamento monetário que se iniciaria com condições formais do sistema de metas apontando para, no mínimo, estabilidade da Selic. Se conseguirem dar este nó em pingo d’água inicial, o novo presidente do BC e os auxiliares que convocar têm chances de chegar em 2017 com uma situação de jogo mais favorável. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 6/5/16, sexta-feira.