Coluna

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Descompassos na avaliação de Dilma

Fernando Dantas

29 de julho de 2014 | 16h58

Há um descompasso entre a popularidade da presidente Dilma Rousseff, medida pelas recentes pesquisas eleitorais, e avaliações de qualidades pessoais da presidente e de diferentes programas do seu governo, medidos por uma pesquisa política não-eleitoral conduzida por uma equipe de cientistas políticos integrada por Cesar Zucco Jr., que é professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape) da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Zucco explica que a sua participação nesse trabalho é pessoal, e que o estudo não é endossado pela Ebape e pela FGV.

Zucco também criou junto com a cientista política Daniela Campello o que os dois batizaram de “índice de bons tempos econômicos”. Trata-se de um indicador que sintetiza apenas preços de commodities e taxas de juros internacionais, e que os cientistas políticos evidenciaram que guarda grande correlação com reeleições presidenciais (ou eleição de candidato apoiado pelo incumbente) e com índices de popularidade em boa parte dos países latino-americanos.

Em recente apresentação, Zucco notou também outro descompasso em relação à presidente Dilma Rousseff. A sua atual popularidade está bem abaixo do que seria “previsto” pelo “índice de bons tempos econômicos”.

Assim, esses dois descompassos fazem da eleição atual uma situação singular. De forma resumida e simplificada, Zucco vê três situações possíveis. A manutenção dos descompassos até as eleições é a primeira delas. A segunda é que haja uma convergência entres esses indicadores contrastantes. Neste caso, há dois desdobramentos possíveis:  a popularidade de Dilma sobe para níveis mais compatíveis com a avaliação de suas qualidades pessoais e de programas do governo, o que evidentemente seria bom para a candidatura da atual presidente; ou as avaliações sobre suas qualidades pessoais e programas do governo convergem para a sua popularidade medida pelas atuais pesquisas eleitorais, cenário bom para a oposição.

Na pesquisa, o grupo de que faz parte Zucco detectou que Dilma tem maiores notas do que Aécio Neves e Eduardo Campos em perguntas como “que nota o(a) Sr.(a) dá para os seguintes políticos?” ou na avaliação de honestidade e competência. Há uma ressalva de que há muito menos respondentes sobre Neves e Campos, por desconhecimento sobre estes candidatos.

Em relação a programas específicos –, Tarifa Social, Minha Casa Minha Vida, Mais Médicos e Bolsa Família –  há aprovação de 75% ou mais dos respondentes.

Outra constatação da pesquisa é que, em respostas coletadas em março, 55,83% dos respondentes disseram que votariam em Lula para presidente, contra 39,65% que não votariam. Entre os que votariam em Lula, 47,9% votariam em Dilma, na escolha entre os candidatos de fato, e 34,6% estavam indecisos (considerados como soma de abstenções, branco, nulo, ‘não sei’ e não respondeu).

A pesquisa política de Zucco e seus colegas segue a metodologia de painel, em que se reentrevista sucessivamente grupos de pessoas dentro de uma determinada amostra, para acompanhar a evolução da opinião ao longo do tempo. A amostra inicial, representativa nacionalmente, foi de 3.000 entrevistados nos seus domicílios. As rodadas sucessivas (já houve uma) envolvem 600 re-entrevistas por telefone.

Na segunda rodada, em julho, verificou-se que a maior taxa de retenção de votos (isto é, o consultado manteve a intenção de voto manifestada em março) foi de Dilma, com 70,83%, seguida de Aécio (63,46%) e campos (57,14%).

Uma parcela de 62,93% dos indecisos em março assim se manteve em julho. Dentre os 43% (no grupo de 600 re-entrevistados) que se disseram indecisos em março, uma parcela de 26,77 pontos porcentuais (pp) assim se manteve em julho; 7,39 pp optaram por Dilma (sempre em julho), 3,45 pp por Eduardo Campos, 3,28 pp por Aécio e 1,64 pp por outros candidatos.

Por outro lado, também houve mudanças em que o entrevistado escolheu um candidato em março e se tornou indeciso em julho. E, neste contingente, a maioria migrou da escolha de Dilma para a posição de indeciso. Fazendo o saldo entre os indecisos que migraram para um determinado candidato, e os que iriam votar neste candidato em março e em julho se disseram indecisos, Dilma avançou 0,66 pp; Campos, 2,46 pp; e Aécio, 1,47 pp.

Na verdade, a pesquisa constatou que quase não houve migração entre candidatos. Já entre os eleitores de Marina em março (em julho ela já não era uma opção), metade tornou-se indecisa e 25% migraram para Campos.

Nas suas conclusões, Zucco aponta fatores positivos e negativos para as perspectivas eleitorais de Dilma. Entre os negativos, o fato de que contexto econômico não deve melhorar, de que a sua popularidade está abaixo de onde “deveria” estar (dado os outros fatores mencionados acima) e de que a diferença em relações aos demais candidatos caiu um pouco.

Já os fatores positivos são a manutenção da força eleitoral de Lula, os programas de governo bem avaliados, a avaliação pessoal da presidente como uma pessoa decente e uma boa taxa de conversão de indecisos.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 28/7/2014, segunda-feira. 

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