Desconforto do BC

Fernando Dantas

21 de agosto de 2013 | 19h27

A posição da equipe econômica, e em particular, do Banco Central, está cada vez mais desconfortável. A disparada do câmbio pegou a economia brasileira no contrapé, com atividade enfraquecida e inflação alta. Agora, as escolhas de política econômica e monetária são todas desagradáveis – e de alto risco em termos do calendário eleitoral.

Hoje (19/8, segunda-feira), no meio da tarde, de acordo com as contas do economista-chefe de um banco nacional, o mercado futuro de juros precificava uma Selic de 10,25% no final de 2013, de 11,75% no final de 2014 e uma Selic média de 12,9% em 2015.

O economista explica que são sinais de que o mercado antecipa que o BC reaja acima do consenso atual dos analistas (que ainda consta das projeções oficiais da maior parte do mercado), em que a taxa básica não chega aos dois dígitos. Ainda assim, a curva de juros indica que aquela reação extraforte do BC ficaria aquém do necessário, já que o juro continuaria a subir em 2014 e 2015.

Existe, é claro, uma enorme ansiedade do mercado sobre a reação do BC. Um experiente analista acha que provavelmente a autoridade monetária ficará quieta por enquanto, já que há sinais de que o mercado pode estar em terreno de overshooting. Nesta situação, tudo que a autoridade monetária não quer é referendar percepções que podem ser exageradas.

Para este analista, há um choque inflacionário de oferta, causado pela fortíssima desvalorização do câmbio, mas também há um choque recessivo (e potencialmente desinflacionário) de demanda, representado pelo grande baque na confiança dos investidores. A própria depreciação súbita e intensa, pelo seu efeito desorganizador, pode prejudicar a atividade de forma imediata, embora no médio prazo favoreça a competitividade.

Desta forma, o BC está diante de uma versão aguda do problema que já vinha enfrentando há algum tempo: há riscos inflacionários e recessivos ameaçando simultaneamente a economia brasileira. O problema agora é que os dois riscos se intensificaram, às vésperas de um ano eleitoral. Em outras palavras, qualquer erro da autoridade monetária pode ser muito mais custoso no novo cenário de grande desvalorização cambial.

O problema de um overshooting, na suposição de que de fato trate-se disto agora, é que é muito difícil determinar onde vai parar e quanto tempo vai durar, na visão de especialistas ouvidos por esta coluna. Um deles observa que a disparada do dólar não parece derivar de apetite pela moeda no mercado à vista, mas sim de uma demanda de hedge por agentes econômicos que subitamente estenderam seus cenários de desvalorização para níveis totalmente impensáveis há até pouco tempo.

“Quem diria, há algumas semanas, que o dólar no final do ano seria de R$ 2,70? Era algo totalmente inconcebível. Mas agora já não é, já tem quem diga”, observa o analista.

Ele acrescenta que a deterioração do cenário internacional e da situação externa brasileira é um fenômeno que vem se desenvolvendo por bem mais tempo do que a mais recente disparada do dólar. Já os movimentos do mercado numa hora tensa como a atual têm componentes técnicos, como zeragem de posições, busca de hedge, etc., que não há como quantificar. Por outro lado, a política de intervenção do BC, mesmo que tenha algum efeito (o real poderia ter se desvalorizado ainda mais, caso a autoridade monetária tivesse cruzado os braços), está claramente sendo incapaz de reverter o ímpeto da depreciação.

“Acho que está todo mundo meio apalermado com a confusão reinante no mercado”, conclui ironicamente o analista.

Este artigo foi publicado originalmente na AE-News Broacast

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