Desemprego caminha para recorde

Bráulio Borges, da LCA e do Ibre/FGV, prevê que desemprego suba acima de picos anteriores desde 1999, mesmo que o auge da atual recessão tenha ficado no terceiro trimestre deste ano.

Fernando Dantas

10 Dezembro 2015 | 17h00

O desemprego associado à atual recessão deve subir a um nível mais alto do que os picos causados pelas recessões de 1998/1999, 2001 e 2003. A projeção é de Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria LCA. Curiosamente, Borges faz esta previsão mesmo tendo uma visão relativamente otimista – comparada à média do mercado – sobre a duração da atual recessão. Ele tem indicações, que considera ainda preliminares para fazer uma afirmação cabal, de que o fundo do poço da atividade, em termos de velocidade da queda, pode ter ficado no terceiro trimestre deste ano.

A LCA reconstruiu desde 1995 a Pnad Contínua, cuja série oficial começa em 2012. “Nós usamos uma miscelânea de indicadores para retropolar a série, como as Contas Nacionais anuais, a Pnad anual, a Rais e o Caged”, diz o economista.

A partir daí, Borges investigou a correlação temporal dos dados do mercado de trabalho e os períodos de recessão de acordo com o Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), segundo o qual a atual recessão começou no segundo trimestre de 2014.

Ele explica que, em relação às recessões, há indicadores tipicamente antecedentes, coincidentes ou defasados. Na primeira categoria, figuram, por exemplo, as vendas da indústria, de papelão ondulado e os estoques do varejo ou da indústria. Já o típico indicador coincidente das recessões é a produção industrial, quase que por definição. E, finalmente, o mercado de trabalho é o exemplo clássico de um conjunto de indicadores cuja tendência, de forma geral, é seguir o ciclo econômico defasadamente.

Dentro do mercado de trabalho, o desemprego tende a ser mais defasado que a taxa de ocupação. Esta está ligada à demanda por trabalho pelas empresas, e sua trajetória aproxima-se mais da trajetória da atividade. Já a oferta de trabalho pelos trabalhadores, ligada à taxa de participação, (população economicamente ativa, PEA, sobre população em idade ativa, PIA) e consequentemente ao desemprego, depende de decisões individuais e é bem defasada no ciclo.

Borges criou recentemente uma metodologia (baseada em similares usados em outros países) para tentar prever viradas no ciclo econômico. Trata-se do indicador de “probabilidade de recessão”, que combina vários índices antecedentes. Em outubro, o indicador ficou em 49% (depois de uma revisão – o primeiro resultado a que se chegou foi 40%), e agora em novembro ficou em apenas 0,4%.

Grosso modo, leituras do indicador acima de 50% indicam maior probabilidade de a recessão prosseguir, e vice-versa (com a ressalva de que o “fim” da recessão é quando esta deixa para trás o seu pico e a atividade começa a caminhada em direção a se estabilizar, isto é, parar de cair, e, posteriormente, ao crescimento). Leituras próximas de 100% apontam com grau bem maior de probabilidade que a recessão prossegue, e as próximas a zero de que o pior já passou. O economista é cauteloso, porém, com o resultado de novembro. “Eu preferia esperar duas ou três leituras perto de a zero antes de afirmar que o pico da recessão foi o terceiro trimestre”, ele diz. Ainda assim, trata-se de uma indicação de que isto pode ser verdade.

Porém, mesmo supondo o pico no terceiro trimestre – e, a partir daí, nas palavras cautelosas do economista, que a atividade “tenha parado de cair num ritmo muito intenso” –, o desemprego deve continuar subindo por alguns trimestres. Este é um padrão que se desenha com certa clareza nos ciclos econômicos anteriores datados pelo Codace.

Se a hipótese de o pico recessivo no terceiro trimestre estiver correta, a taxa de ocupação até pode parar de cair a partir deste ponto ou recuar mais lentamente, mas provavelmente a oferta de trabalho vai continuar aumentando, com mais jovens e membros do domicílio tentando aumentar a renda familiar (aliás, Bráulio constatou que o padrão de evolução da renda diante do ciclo econômico medido pelo Codace é bem mais difícil de identificar do que os padrões das variáveis de emprego propriamente ditas).

Assim, pela sua avaliação, o desemprego continuará subindo durante alguns trimestres. Partindo do nível de 8,9% atingindo na Pnad Contínua no terceiro trimestre deste ano, deverá ultrapassar os picos anteriores: 10,3% no terceiro trimestre de 1999, 10,5% no primeiro trimestre de 2002 e 10,8% do primeiro trimestre de 2004. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 9/12/15, quarta-feira.