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Desigualdade global

Estudo indica que desigualdade no mundo pode ser maior do que se supunha.

Fernando Dantas

23 de janeiro de 2018 | 16h33

Existem alguns pontos consensuais da maior parte dos estudiosos atuais sobre a distribuição de renda no mundo: dois terços a três quartos da desigualdade global derivam das diferenças entre países, e a menor parte restante advém da distribuição dentro de cada país; a desigualdade entre países está diminuindo, enquanto aquela no interior de cada nação está aumentando; e a desigualdade no mundo está caindo desde 1990.

Esses fatos estão mencionados na introdução de um interessante estudo recente do economista Martin Ravallion, “Global Inequality when unequal countries create unequal people” (“Desigualdade Global quando países desiguais criam pessoas desiguais”) para o National Bureau of Economic Research (NBER), importante instituto de pesquisa econômica dos Estados Unidos.

A conclusão mais relevante do trabalho é que a desigualdade global está subestimada, principalmente porque as medidas habituais não incluem o bem-estar subjetivo de se viver num país rico ou pobre.

O autor nota que os trabalhos acadêmicos sobre desigualdade no mundo normalmente partem do pressuposto de que a renda média nacional não é um fator relevante para se medir o bem-estar de cada um baseado na renda domiciliar – colocando de forma mais simples, se dois indivíduos têm renda familiar per capita de US$ 1.000 por mês, medida em paridade de poder de compra (PPP), um na Índia e o outro nos Estados Unidos, ambos estariam exatamente na mesma posição na distribuição global de renda. É exatamente esse pressuposto que o estudo de Ravallion coloca em xeque.

O economista discute as diferenças entre as abordagens “nacionalista” e “cosmopolita” da desigualdade.  Normalmente, os argumentos contra a desigualdade focam muito mais a distribuição de renda nacional do que a global, inclusive porque é no primeiro contexto que as pessoas parecem formar a visão sobre seu próprio status social.

O autor revela sua preferência moral pela abordagem cosmopolita, isto é, na qual toda a humanidade é analisada conjuntamente, não importando a nacionalidade de cada um – ele inclusive cita, em apoio a esta ideia, trabalhos do australiano Peter Singer, um dos mais renomados filósofos morais da atualidade.

Ravallion nota que o fato de alguém ter determinada renda (medida a preços constantes que possibilitem comparações internacionais) num país mais rico tanto pode ter um efeito negativo de bem-estar, porque a sensação de privação relativa é maior, em função da maior distância até a renda mediana; quanto pode ter um efeito positivo, ligado a melhores instituições típicas de um país avançado, em áreas como serviços públicos, segurança, oportunidades, lazer e seguridade social.

Assim, o paper busca avaliar a sensibilidade dos consensos inicialmente mencionados sobre a desigualdade global em relação à abordagem que considera a renda nacional de um dado país como um fator intrínseco do bem-estar individual (isto é, o fato de morar num país rico ou pobre influencia o bem-estar das pessoas, para além do que é captado pela mensuração da renda individual nas pesquisas domiciliares).

Com argumentação teórica e empírica, o trabalho de Ravallion conclui que a renda nacional importa para o bem-estar individual e que o efeito positivo de se viver num país de renda média mais alta (ou vice-versa) é muito expressivo. O estudo mostra ainda como esses achados colocam em xeque parte do que hoje é a sabedoria convencional sobre a distribuição de renda global.

Talvez a conclusão mais significativa seja de que a desigualdade mundial é maior do que se pensava, e é maior também do que a existente em qualquer país individual, mesmo aqueles com as piores distribuições de renda. Aliás, segundo o economista, a abordagem da renda nacional como fator intrínseco revela uma diferença maior entre a desigualdade global medida pelas pesquisas domiciliares e a verdadeira do que a diferença que se argumenta existir pelo fato de estas pesquisas subestimarem a renda dos ricos. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 222/1/18, segunda-feira.

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