Desindustrialização global

Fernando Dantas

11 de fevereiro de 2014 | 18h27

O respeitado economista Dani Rodrik, de Princeton, é conhecido há bastante tempo como um defensor da importância da indústria no processo de desenvolvimento econômico. Desta forma, ele está próximo das teses dos economistas desenvolvimentistas e heterodoxos no Brasil. Em recente conversa com a Broadcast, Rodrik confirmou este fato: “Eu estou do lado da escola desenvolvimentista, e realmente acho que o setor manufatureiro é extremamente importante para o crescimento”.

Mas Rodrik acrescenta hoje em dia uma nova reflexão ao seu tradicional posicionamento, o que muda muito as consequências práticas das suas ideias. Segundo o economista, quase todos os países estão passando por processos de desindustrialização, e, com isso, não têm mais como contar com um dos motores clássicos do crescimento acelerado.

“Há muitos poucos países hoje que não estão se desindustrializando, independentemente do seu nível de renda e da sua estrutura industrial”, diz Rodrik, acrescentando que “o que é pouco sabido é que até a China está se desindustrializando, e isso já vem de algum tempo”.

Ele prossegue dizendo ser muito cético sobre as chances de um país como Brasil interromper “o quase inevitável processo de desindustrialização”.

Para Rodrik, o fenômeno tem a ver com mudanças no padrão da demanda global, que está se movendo da indústria para os serviços. Outro aspecto é de natureza tecnológica: como a indústria é mais produtiva do que outros setores de economia, ela utiliza cada vez menos recursos para produzir as mesmas quantidades. Isto, por sua vez, reduz a criação de empregos nas manufaturas.

“A minha mensagem não é muito otimista, pois significa que um país como o Brasil não pode retornar às taxas de crescimento muito rápidas dos anos 50, 60 e 70, até a crise da dívida, e que foram baseadas na rápida industrialização”.

Em termos de recomendações de política econômica, Rodrik mantém-se favorável a algum tipo de política industrial e uma política macroeconômica que evite a sobrevalorização e a volatilidade cambial, de forma a manter a competividade da indústria. Ele frisa que estas políticas devem ser “sensatas”.

Mas o economista alerta que “é preciso muita cautela para não ser ambicioso demais em relação à quanta reindustrialização é de fato possível”.

“Você olha em volta e vê a desindustrialização ocorrendo em toda a parte – isso me deixa um pouco cético de que políticas industriais ou cambiais possam revertê-la”, ele diz.

Rodrik admite que não tem uma boa resposta para o que colocar no lugar da industrialização como motor de crescimento.

Ele acha importante, em primeiro lugar, que as autoridades econômicas sejam muito mais realistas em termos das taxas de crescimento econômico sustentável que podem ser alcançadas. E ele defende também uma ênfase maior na melhora institucional e no investimento em capital humano – o que, diga-se de passagem, o aproxima das correntes mais ortodoxas que, no Brasil, se opõem aos desenvolvimentistas.

“Quando a industrialização já não pode ser o motor de crescimento, é preciso assegurar que a capacidade geral da economia, em termos de capital humano e instituições, aumente”, recomenda Rodrik. Para ele, este tipo de política estrutural não exclui políticas industriais e cambiais, que podem ser adotadas, desde que de forma sensata e sem demasiada ambição.

“Não é o caso mais de mirar uma reindustrialização rápida, mas sim assegurar que o setor manufatureiro retenha empregos e capacidade, que a estrutura industrial evolua em termos de produtividade e continue a gerar as inovações tecnológicas que ela tipicamente é mais capaz de gerar do que os outros setores da economia”, ele conclui.

Em relação às rápidas taxas de crescimento dos Brics e outros emergentes há até pouco tempo, Rodrik considera que foram ligadas a uma conjuntura global muito especial de alta de commodities e alta liquidez, e que não eram sustentáveis.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada na segunda-feira, 10/2/14, na AE-News/Broadcast

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