Desinflação em emergente é mais sofrida

Relatório do Credit Suisse tem seção, de autoria dos brasileiros Lucas Vilela e Solange Srour, mostrando como e por que emergentes, como o Brasil, devem ter processo de desinflação lento, penoso em termos de atividade e arriscado.

Fernando Dantas

11 de janeiro de 2022 | 18h50

No dia em que mais uma surpresa negativa no front inflacionário brasileiro é divulgada – com o IPCA de dezembro, de 0,73%, acima da mediana das projeções (0,65%), e qualitativamente bastante ruim –, uma seção de alentado relatório sobre a economia global em 2022 do Credit Suisse chama a atenção.

A seção, sobre desinflação nos mercados emergentes, é assinada por Lucas Vilela e Solange Srour, economistas do Credit Suisse no Brasil. Solange é a economista-chefe.

O resumo da história não é animador. Os economistas descrevem uma “tempestade perfeita” desde o início da pandemia nos emergentes, com depreciação cambial, problemas particulares de cada país, contração da oferta junto com estímulo fiscal e forte alta das commodities.

Para eles, a inflação na maioria dos emergentes é mais persistente (vis-à-vis os países avançados) por causa da menor credibilidade  das políticas monetária e fiscal, do alto risco político e da maior inércia.

Se a inflação atual nos ricos também se mostrar mais persistente, a coisa piora ainda mais para os emergentes, porque a alta do juro internacional vai depreciar ainda mais as suas moedas.

Os economistas preveem que, na maioria dos países emergentes mais penalizados pela inflação atualmente (Brasil incluído), mesmo a meta inflacionária do ano que vem não deve ser cumprida. A disparada da inflação nessas economias, que chegou a ser considerada temporária pelos respectivos bancos centrais, deve ser bem mais duradoura.

Segundo os economistas, os maiores desvios, tomando-se o acúmulo de inflação acima da meta desde janeiro de 2020, são da Turquia (32,1%), Brasil (12,8%), Rússia (10,1%), Romênia (9,4%), Polônia (9%) e México (8,8%).

Com exceção da Romênia, todos os outros países sofreram agudas depreciações cambiais ante o dólar, lideradas pela Turquia (acima de 160%) e Brasil (37%). Por causa da pandemia, esses países implementaram fortes estímulos fiscal e monetário, com Rússia e Brasil levando suas taxas básicas ao menor nível da história. No Brasil, Chile, México, Peru e Polônia, a inflação não só está acima da meta, mas também elevada em termos históricos.

O problema para esses emergentes, argumentam Vilela e Srour, é como evitar a desancoragem das expectativas que pode levar uma autoalimentada espiral de preços. Aumento de gastos públicos permanentes e choque externos aumentam esse risco, assim como dúvidas sobre a credibilidade do BC.

Um parêntese relevante aqui é que os economistas apontam a Turquia como um caso à parte. O BC turco está cada vez mais comprometido por pressões políticas (do presidente Recep Erdogan, que o relatório não menciona diretamente), e, na contramão de todo mundo, cortou a taxa básica de 19% para 15% entre setembro e dezembro do ano passado. Nos outros países, Brasil incluído, o aperto da política monetária já começou.

A inflação turca, como era de se esperar, disparou de 19,6% para 36,1%, e deve continuar a subir, para os analistas.

Os outros países estão enfrentando a desinflação. A notícia não muito animadora dos economistas é que esses processos em países emergentes costumam ser muito demorados e custosos em termos de atividade econômica.

Eles analisaram 30 processos desinflacionários desde 2020 em 12 mercados emergentes, analisando períodos que se iniciam quando a inflação anual ultrapassa a mediana por um desvio padrão e terminando quando volta à mediana. A média de duração desses processos desinflacionários foi de 27 meses, e a mediana foi de 22 meses.

Em 86% dos processos houve uma extensão ou um aumento da capacidade ociosa registrada no começo do ciclo. Os economistas dividem os processo de desinflação de mercados emergentes que analisaram em três tipos.

O primeiro é um aperto monetário que foi capaz de aumentar a ociosidade, valorizar o câmbio e reduzir as expectativas inflacionárias. Um dos exemplos é o Brasil a partir de 2015. O segundo tipo não conseguiu valorizar a moeda e teve que ampliar ainda mais a ociosidade para controlar as expectativas inflacionárias.

E o terceiro tipo, cujo único exemplo mencionado é o Brasil em 2002, parte já de uma alta capacidade ociosa, e consegue controlar as expectativa e valorizar o câmbio.

Os autores concluem escrevendo que esperam um longo processo desinflacionário em países que acompanham, como Brasil, Chile e Colômbia. Eles explicam que menor credibilidade da política econômica, mais risco político e mais indexação fazem a inflação dos emergentes cair mais devagar. Eleições no Brasil e na Colômbia podem reforçar alguns desses fatores. E a perspectiva de uma desinflação mais dura nos ricos só torna o cenário ainda mais complicado.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/1/2022, terça-feira.