‘Desmaterialização’ é melhor que ‘decrescimento’

O PÌB mundial utiliza cada vez menos materiais do mundo físico para prover as pessoas com cada vez mais bens e serviços (especialmente nos países ricos), que é bom para o meio ambiente.

Fernando Dantas

04 de junho de 2021 | 16h01

Um tema que entrou na moda nos último anos é o do “decrescimento”. A ideia é que aumentar o PIB não está com nada, porque o indicador não mede adequadamente a felicidade humana, é materialista e seu crescimento destrói o meio ambiente.

A este colunista essa visão sempre pareceu bastante elitista.

Uma diferença entre países subdesenvolvidos e avançados é que, nos últimos, as pessoas são em média mais produtivas. Isso reflete melhores postos de trabalho mas também, e sobretudo, o capital humano individual dos cidadãos.

Pessoas com mais capital humano são mais educadas e geralmente levam uma vida mais confortável e exercem atividades profissionais mais gratificantes. Com grande parte da humanidade ainda vivendo na pobreza ou com padrão de vida insatisfatório, querer interromper o crescimento econômico parece uma ideia egoísta.

Mas há um segundo conceito, mais promissor, que é a “desmaterialização” da economia, tema abordado em recente artigo de Michael Loksin, economista-sênior do Banco Mundial, no blog da instituição.

A desmaterialização é a redução da quantidade de materiais necessária para mover a economia. Ela está acontecendo em ritmo forte nos países ricos, como Loksin mostra com fartura de exemplos.

A agricultura avançada usa menos terra, fertilizantes e água e produz muito mais. Uma das consequências da retração da área cultivada nas nações avançadas é que a área florestal voltou a crescer nos Estados Unidos, na Europa, no Japão e até na China.

Hoje, não só se produz mais madeira em áreas muito menores (as plantações de eucalipto no Brasil são dez vezes mais produtivas do que florestas do hemisfério Norte), mas o consumo de madeira caiu. Uma das razões é a queda do uso do material na construção de navios e estradas.

Com o avanço da tecnologia em termos de materiais mais leves e resistentes, o peso de produtos metálicos que vão de latas a automóveis despencou. Em 20 anos, os Estados Unidos passaram a consumir 15% a menos de aço, 30% a menos de alumínio e 40% a menos de cobre. O consumo de energia nos Estados Unidos também parou de crescer há uma década.

Parte da redução do consumo de materiais nos chamados “metabolismo industrial” e “metabolismo social” nos países ricos pode ser atribuída à transferência da produção para países emergentes. Mas Loksin escreve que o “off-shoring” não dá conta de explicar a desmaterialização em curso no mundo desenvolvido.

Entre os fatores que levam à desmaterialização, o economista cita o progresso tecnológico, a economia digital (troca de “átomos por bits”), técnicas de impressão 3D com componentes desenhados para o cliente sem nenhum desperdício, competição de custos, valorização do meio ambiente por governos e cidadãos e a mudança da economia de bens para serviços.

A desmaterialização, embora concentrada nos países ricos, também chega ao resto do mundo a bordo de novas técnicas de produzir e vender.

Uma das conclusões de Loksin é que isso significa que os proponentes do decrescimento não deveriam se preocupar tanto com a expansão do PIB em si, pois provavelmente o “catch-up” das nações em desenvolvimento hoje se fará de forma mais limpa do que o take-off econômico dos países hoje ricos realizado muitas décadas ou até séculos atrás.

Mas uma outra possível conclusão é que o decrescimento não só é egoísta, como provavelmente prejudicial a um planeta mais limpo e verde.

Diversos fatores da desmaterialização citados pelo autor – avanço tecnológico, maior consciência ambiental, digitalização econômica, desvio dos consumo de bens para serviços – são consequências justamente do crescimento econômico e do aumento da produtividade individual e coletiva de uma nação.

Impedir o crescimento econômico, portanto, é também uma forma de apostar na poluição, no desperdício de materiais, na deflorestação etc. A desmaterialização, sem dúvida, é bem melhor que o decrescimento.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/6/2021, quarta-feira.