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Saindo da força de trabalho

A taxa de participação, isto é, as pessoas em idade de trabalhar que estão empregadas ou procurando emprego, está despencando em função da pandemia. E isso pode até atenuar a taxa de desemprego.

Fernando Dantas

04 de maio de 2020 | 20h58

A taxa de desemprego de março (trimestre até março, isto é, o primeiro do ano) ficou em 12,2%, um pouco abaixo da mediana dos analistas consultados pelo Projeções Broadcast, de 12,4%. Os dados são da Pnad Contínua, do IBGE.

No entanto, esse resultado não quer dizer que a crise do coronavírus não tenha atingido o mercado de trabalho com toda a força ainda no primeiro trimestre, apesar de a quarentena nas principais capitais do País só ter começado na segunda semana do mês passado.

Tomando como base de comparação sempre o mesmo trimestre 12 meses antes, o crescimento da população ocupada (PO), que vinha a um ritmo médio próximo a 2% desde o início de 2019, freou bruscamente para 0,4% no primeiro trimestre de 2020.

O economista Daniel Duque, analista de trabalho do Ibre/FGV, diz que projetava uma queda do ritmo do crescimento da PO para 0,8%, com o resultado surpreendendo para pior.

Mas houve um efeito ainda mais marcante, na taxa de participação, que é a proporção das pessoas em idade de trabalhar que estão na população economicamente ativa (PEA), isto é, ocupadas ou buscando ocupação.

Na comparação com o primeiro trimestre de 2019, houve um recuo de 0,7 ponto porcentual, de 61,7% para 61%, da taxa de participação do primeiro trimestre de 2020. Esse 0,7 pp é muito grande para uma mudança da taxa de participação em um ano, explica Duque. Na verdade, é a maior mudança da série, iniciada em 2012, nesse intervalo de tempo.

O analista já esperava que a pandemia levasse a uma queda da taxa de participação, mas não tão forte e tão rápida. Na sua avaliação anterior, isso ocorreria mais neste segundo trimestre, quando os efeitos econômicos do isolamento social estão no auge.

Essa surpresa, inclusive, fez com que Duque mudasse sua projeção de queda da taxa de participação no ano, de enormes 2 pontos porcentuais para colossais 3,4 pp.

Basicamente, quem perde o emprego durante a pandemia tem fortes incentivos para sair do mercado de trabalho (isto é, não procurar ocupação) pelo menos por algum tempo.

O primeiro deles é que a orientação geral é a de permanecer em casa. O choque inicial da Covid-19 destruiu principalmente empregos informais, e estas são tipicamente ocupações cuja busca exige que o cidadão vá para a rua.

Porém, mesmo supondo que a pessoa esteja disposta a se arriscar à contaminação pelo coronavírus para procurar ocupação, ela sabe que o mercado de trabalho entrou em colapso – especialmente no comércio e nos serviços, os grandes geradores de empregos na economia. Assim, é natural que muitos prefiram ficar em casa.

Um terceiro fator é o auxílio emergencial para dezenas de milhões de trabalhadores informais, o que lhes permite ficar em casa, ao repor a renda perdida ou mitigar a perda (na verdade, em muitos casos, como boa parte dos beneficiários do Bolsa-Família, a nova transferência deve até aumentar a renda).

É esse último fator, que deslanchou em abril, que faz Duque prever que a retração da taxa de participação será fortíssima neste segundo trimestre.

Um dos efeitos mais relevantes da queda da taxa de participação é o de amenizar a alta do desemprego, que é medida como a razão entre os desocupados e a PEA.

O economista Bruno Ottoni, da IDados, empresa de pesquisa de dados em mercado de trabalho e educação, já esperava, mesmo no primeiro trimestre, uma queda muito forte da taxa de participação. Por isso, sua projeção de taxa de desemprego no período era de 12,1%, muito próxima do resultado efetivo de 12,2%.

No seu pior cenário de queda de PIB em 2020, de 4,4%, Ottoni projeta que o desemprego médio do ano será de 13,5%. Pode até parecer pouco aumento, mas é justamente por causa do enorme recuo da taxa de participação.

Já Duque, do Ibre, diz que vai ajustar a sua projeção de alta média do desemprego no ano para incluir o efeito mitigador da queda da taxa de participação.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 30/4/2020, quint-feira.