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Devagar com o andor

Resultado da produção industrial em novembro mostra que setor ainda luta contra problemas conjunturais e estruturais, e pode ser um freio na retomada brasileira.

Fernando Dantas

09 de janeiro de 2020 | 20h41

Os resultados da produção industrial de hoje podem servir como um jato de água fria naqueles que estão se animando demais com a recuperação da economia brasileira. Não resta dúvida de que todos os sinais indicam que 2020 vai ser um ano, em termos de recuperação, um degrau acima do triênio sofrível de 2017 a 2019. Mas um ritmo satisfatório de crescimento para uma economia emergente como o Brasil ainda não está garantido.

E um dos problemas é justamente a indústria, talvez o setor que mais deu “falsos positivos” – isto é, sinais animadores seguidos de desapontamentos – na frágil e lentíssima recuperação da economia brasileira depois da desastrosa recessão de 2014-2016.

Em novembro, a indústria, segundo a PIM-PF do IBGE, recuou 1,2% ante outubro, na série dessazonalizada. Foi um resultado bem pior que a mediana das projeções dos analistas consultados pelo Projeções Broadcast, de -0,5%. Em relação a novembro de 2018, o recuo foi de 1,7%, abaixo da mediana de -0,7%, e perto do piso das projeções, de -1,9%.

Em termos da indústria de transformação, o segmento mais relevante do setor, houve queda de 1,3%, ante outubro (na série dessazonalizada), e recuo de 0,6%, ante novembro de 2018. Os dados são do Ibre (na divulgação oficial do IBGE, não há essa desagregação). Os resultados da indústria de transformação vieram pior do que o esperado pelo Ibre.

Houve queda em 15 das 25 atividades que compõem a indústria de transformação, com destaque para a queda da produção de veículos. Como explica Luana Miranda, economista do Ibre, com foco em atividade econômica, esse resultado do setor automotivo já era esperado diante do nível de estoques historicamente altos registrados em outubro.

Em relação à indústria extrativa-mineral, que sofreu o choque de Brumadinho em fevereiro, também houve decepção em novembro, com recuo de 8,9% ante o mesmo mês de 2018, e de 1,3%, ante outubro, na série dessazonalizada.

A extrativa começou a melhorar a partir de maio, mas voltou a piorar após setembro, contrariamente à expectativa do Ibre. No entanto, segundo Miranda, a tendência à piora (ante os mesmos períodos do ano anterior) deve se reverter em fevereiro, por causa da base de comparação muito baixa a partir de fevereiro de 2019.

O economista Silvio Campos Neto, sócio da Tendências, diz que a consultoria já esperava uma queda da produção industrial de novembro próxima da que efetivamente ocorreu.

Ele nota que, dentre todos os setores da economia brasileira – incluindo a construção, que foi o que mais sofreu desde 2015 – a situação da indústria de transformação é a mais desafiadora em termos da retomada.

Há um problema global de alta ociosidade no setor, incluindo nas potências industriais como Alemanha e China. Isso faz, inclusive, com que o mercado doméstico de produtos manufaturados no Brasil, mesmo que em recuperação, sofra uma acirrada concorrência da oferta externa.

Adicionalmente, países que são compradores relevantes de produtos industriais brasileiros estão passando por graves crises ou não estão em seus melhores momentos. O caso principal e mais impactante é a Argentina, mas Chile e México são outros exemplos.

Esses são problemas conjunturais da indústria de transformação brasileira, mas que se juntam às conhecidas dificuldades estruturais: o sistema tributário caótico, outros aspectos do “custo Brasil” e o desempenho muito ruim da produtividade nos últimos anos.

Na visão de Campos Neto, a atual equipe econômica tem a visão correta sobre esses problemas e uma agenda adequada para atacá-los. Mas ele acrescenta que “esse é um processo que leva tempo, a reconstrução da competitividade da indústria brasileira é algo que vai acontecer ao longo de anos”.

Outros elementos do PIB podem ser um fator de compensação durante a convalescença da indústria. A curto prazo, Miranda, do Ibre, prevê que o comércio varejista deve sustentar a atividade econômica em novembro e dezembro, compensando decepções com a indústria. Ela menciona os fatores por trás do aumento do consumo no fim do ano, como o FGTS, melhora do mercado de trabalho, avanço do crédito e inflação sob controle.

Porém, como ressalva a economista, a indústria pode ser um freio importante no PIB, pelo seu poder de irradiação.

“O resultado desanimador da indústria de transformação tende a contaminar a produção em outros setores, como transportes e comércio, e gerar menor arrecadação de impostos, o que se reflete no resultado final do PIB”, ela diz.

Campos Neto acrescenta, falando de forma mais geral da perspectiva da demanda para 2020, que o Brasil permanece um avião que decola sem usar todas as turbinas. A demanda oriunda do setor pública – que provocou um surto de crescimento insustentável na primeira década deste século e no início da segunda, com muito gasto público e de estatais e maciça injeção de crédito subsidiado pelos bancos públicos – está fora da jogada agora, por óbvios motivos fiscais e parafiscais de força maior.

A demanda externa também permanece enfraquecida, e a economia depende do consumo das famílias e do investimento privado. Em suma, é um quadro em que as duradouras dificuldades da indústria de transformação podem de fato fazer uma diferença significativa para pior.

Talvez não por coincidência, a projeção de PIB da Tendências para 2020 é de 2,1%, e a do Ibre é de 2,2%. Prognósticos que hoje soam conservadores diante de certa animação de analistas, mercado e governo.

Quanto à indústria em si, medida pela PIM-PF, Campos Neto prevê crescimento de 2,6% para 2020, depois de uma queda projetada de 0,9% em 2019 (falta dezembro para fechar o ano). Nada espetacular, mas é sem dúvida uma retomada. Ele alerta, no entanto, que a indústria é o setor que tem provocado mais surpresas nos últimos anos, com muitas delas sendo negativas. É bom ir devagar com o andor.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 9/1/20, quinta-feira.

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