Dilma dá sinais de ajuste gradual

Em entrevista à imprensa, a presidente reeleita sinalizou estratégia gradualista para enfrentar desequilíbrios da economia brasileira.

Fernando Dantas

09 de novembro de 2014 | 19h36

Os primeiros sinais mais consistentes da presidente reeleita, Dilma Rousseff, sobre a política econômica do segundo mandato apontam na direção de um ajuste gradual. São ideias que se encaixam com as recentes intervenções no debate público do ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. Evidentemente, isto não quer dizer que ele será o escolhido.

Henrique Meirelles, o outro nome mais cotado recentemente para o Ministério da Fazenda, não tem exposto tanto o seu pensamento publicamente em tempos recentes. Mas suas ideias são bem conhecidas. O ex-presidente do Banco Central no governo Lula tem uma visão bastante ortodoxa da economia, com grande ênfase na baixa inflação – que considera essencial para dar previsibilidade aos empresários e agentes econômicos – e no rigor fiscal.

Recente rumor que teve alguma repercussão nos mercados aponta que Lula estaria sugerindo a Dilma colocar Meirelles na Fazenda e Barbosa no Planejamento. De qualquer forma, as ideias expostas pela presidente na entrevista estampada na sexta-feira (7/11/14) nos principais jornais do País parecem se inclinar mais para o que pensa o ex-secretário executivo da Fazenda.

Dilma voltou a dizer que não cogita em reduzir a meta de inflação, associando uma medida deste tipo ao aumento do desemprego. É uma visão nada ortodoxa do funcionamento da economia, que Meirelles provavelmente não subscreveria.

Não que o ex-presidente do BC ou qualquer economista mais à direita defendam hoje uma redução imediata da meta de inflação. Está claro – inclusive, como Armínio Fraga, principal assessor econômico do candidato derrotado, Aécio Neves, colocou durante a campanha – que a visão nesse campo ideológico é de que a prioridade do momento é trazer a inflação do território próximo ao teto do limite de tolerância, de 6,5%, para o centro da meta, de 4,5%. Apenas numa segunda etapa, com este primeiro objetivo já cumprido, é que se pensaria numa gradual redução da meta de inflação para níveis mais consagrados internacionalmente, como 3%.

O mais significativo na fala presidencial, porém, é a associação entre inflação baixa e aumento de desemprego. Em prazo muito curto, quando se pensa num processo de desinflação, não há economista honesto intelectualmente que negue aquela relação, pelo menos em caráter temporário e reversível. Já em termos mais permanentes ou de médio e longo prazo, como parece insinuar Dilma, a associação é rechaçada com grande vigor pelos economistas mais ortodoxos, que, pelo contrário, ligam baixa inflação a mais crescimento. Meirelles está 100% neste time.

Na área fiscal, a fala de Dilma foi um pouco mais forte. Ela citou três programas como alvos potenciais para cortes de gastos: pensões por morte, seguro-desemprego e abono salarial. Trata-se, portanto, de uma agenda de restrição de direitos, a mais difícil politicamente na seara fiscal (embora Dilma tenha observado que, no caso do seguro-desemprego, há fraudes). Nesses temas, provavelmente não há diferenciação entre Barbosa e Meirelles. O primeiro já defendeu pelo menos parte desta agenda publicamente. Meirelles, com sua postura fiscalista, dificilmente seria contra medidas desse tipo.

Nenhuma das medidas acima, porém, viabilizaria um salto no superávit primário recorrente do setor público de 2,5 a três pontos porcentuais do PIB (o que se considera necessário pela maior parte dos analistas para dar conforto à trajetória da dívida pública), mesmo que se pense num ajuste fiscal gradativo ao longo de três ou quatro anos. O ajuste de contas do governo mencionado pela presidente envolveria outras medidas duras e antipáticas, que afetariam consumidores (redução ou eliminação de isenções tributárias) e empresários (redução de subsídios e alta da TJLP). Dilma não fez quaisquer menções nesta direção.

A presidente, portanto, seja quando fala da relação entre inflação e desemprego, seja quando dá pistas sobre o ajuste fiscal, parece resistir à ideia de que o ajuste possa gerar qualquer tipo de dor. Isto, por sua vez, por exclusão, indica que, quanto mais gradualista o caminho, mais chances ele tem de apetecer a presidente na sua atual disposição.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 7/11/2014, sexta-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.