Dilma delegar importa mais que Mantega sair

Já era sabido que Mantega sairá num eventual novo mandato de Dilma, mas ênfase da presidente neste fato é significativo. Ainda assim, para mudar expectativas ela tem de delegar o poder.

Fernando Dantas

07 de setembro de 2014 | 21h39

A sinalização pela presidente Dilma Rousseff de que vai trocar o ministro Guido Mantega, caso se reeleja, não é exatamente uma novidade para o mercado financeiro e quem acompanha a economia brasileira mais de perto. O próprio Mantega já havia emitido sinais nessa direção. Ainda assim, o fato de que a presidente sublinhe esta disposição agora é significativa. Nada do que se faz em plena campanha eleitoral é impensado.

O desafio de Dilma perante o furacão Marina é enorme, mas aparentemente o PT já superou a fase de choque, recobrou forças, reorganizou a estratégia e partiu para a luta. A presidente, ao chamar a atenção para a breve dispensa do mais longevo ministro da Fazenda desde pelo menos a redemocratização, sinaliza que haverá mudanças na sua política econômica. Ao mesmo tempo, ao justificar a substituição pela simples associação de uma equipe nova a um governo com mandato renovado, ela habilmente circunda a autocrítica à sua própria política econômica, que, se realizada, seria suicídio eleitoral neste ponto da campanha.

Em outras palavras, o anúncio da partida de Mantega pode ajudar a desanuviar o péssimo clima entre o governo e os investidores (no mínimo, não atrapalha em nada), sem que a presidente tenha de admitir que as críticas de Aécio e Marina são certeiras.

Os nomes que surgem nas especulações, como o de Otaviano Canuto, do Banco Mundial, e Nelson Barbosa, ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda, representam para a maioria do mercado um avanço em relação à Mantega. Canuto tem um perfil liberal, mas sem nenhum radicalismo, e Barbosa, mesmo com raízes heterodoxas, é visto como moderado, flexível e capaz.

Outro aspecto importante de qualquer mudança na equipe econômica, do ponto de vista do mercado e dos analistas de inclinação mais ortodoxa, é o que acontecerá com o atual secretário do Tesouro, Arno Augustin. Ele é visto como o cérebro da contabilidade criativa e apoiador do enfraquecimento da política fiscal, que são dos pontos mais criticados da política econômica de Dilma. Há uma percepção de que Augustin é muito próximo à presidente. A sua manutenção, portanto, funcionaria tanto como um alívio para os que apoiam o projeto neodesenvolvimentista como uma decepção para os críticos da chamada nova matriz econômica.

O maior problema, porém, como coloca José Márcio Camargo, economista-chefe da gestora Opus, no Rio, “é que ninguém sabe se um eventual substituto do Mantega terá liberdade para agir ou ficará submetido à visão da presidente Dilma”.

Em outras palavras, há uma visão generalizada de que a presidente controla com mão de ferro a política econômica, e que a guinada heterodoxa foi em grande medida sua decisão pessoal. Isso é coerente com sua formação acadêmica como economista na Universidade de Campinas.

Hoje, por exemplo, Dilma declarou em Porto Alegre que não é possível que o preço dos combustíveis tenha de ser vinculado ao preço internacional. Segundo um analista, “uma declaração dessas faz o empresário pensar, independente de quem está na Fazenda – ‘se ela faz isso com a Petrobrás, o que ela não poderá fazer com a minha empresa’”.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 5/9/14, sexta-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: