Dilma melhora quando surge adversário mais temível

Dilma recuperou-se expressivamente na última pesquisa Datafolha. Mas justamente na hora em que surge Marina, um adversário mais difícil de vencer.

Fernando Dantas

21 de agosto de 2014 | 12h34

No alvoroço causado pela entrada de Marina Silva na pesquisa de intenção de voto da Datafolha com 21%, ligeiramente acima dos 20% de Aécio Neves (considerando-se a margem de erro, estão empatados), é importante não perder de vista a significativa melhora da presidente Dilma Rousseff. Infelizmente para o governo, porém, a recuperação da presidente parece ser talhada para aumentar suas chances na disputa com Aécio Neves, e bem menos para o embate com Marina Silva.

Essa recuperação pode ser notada principalmente nos índices de popularidade. No curto espaço de tempo entre meados de julho e de agosto, o porcentual das pessoas que considera o governo Dilma ótimo ou bom subiu de 32% para 38%. Já o porcentual que o considera ruim ou péssimo caiu de 29% para 23%. Como notou o cientista político Celso de Barros, a diferença entre o ótimo/bom e o ruim/péssimo saiu de três para quinze pontos porcentuais em um mês.

Essa melhora reflete-se na simulação de segundo turno. Na pesquisa de julho do Datafolha, Aécio tinha 40%, contra 44% de Dilma, o que configurava um empate técnico, considerando-se a margem de erro. No levantamento divulgado hoje, Dilma sobe para 47%, e Aécio cai para 39%, quase os mesmos números das pesquisas dos inícios de junho e de julho.

Curiosamente, parece que 2013 está repetindo o padrão sazonal de 2014, quando o ápice do mau humor e da queda de popularidade da presidente ocorreram em junho, mês das manifestações, e julho. Este ano, o período equivalente coincidiu com a Copa, um evento que, apesar de todo o amor do brasileiro por futebol, foi “marcado” para ser a hora de se ventilarem as insatisfações com as políticas públicas do País.

Entender essa sazonalidade da popularidade em 2013 e 2014, e que possivelmente tem raízes (de forma mais discreta) que vêm de mais tempo, seria uma tarefa interessante para economistas e cientistas políticos. Há, por exemplo, a questão da inflação, cujos índices correntes caíram de maneira forte recentemente. A “devolução” da alta dos preços de alimentos, por exemplo, pode ter um efeito tão significativo de bom humor quanto a fase de elevação tem de mau humor.

Se não fosse pelo fenômeno Marina, o governo certamente poderia comemorar bastante esse último levantamento do Datafolha. Alguns fatores indicam que a popularidade presidencial pode ser manter ou até aumentar até as eleições. No campo econômico, ainda que a inflação corrente não permaneça tão baixa quanto nas últimas leituras, não há indicações de choques altistas no curto prazo.

A atividade econômica está cada vez pior, mas é o mercado de trabalho, e não o PIB, que provavelmente mexe mais com o sentimento do eleitor. Apesar de gradativos sinais de enfraquecimento na confusa pletora de termômetros (PME parcial, por causa da greve; Pnad contínua, Caged), o crescimento real da renda persiste, sem sinais de grande reversão nos próximos meses. A taxa de desemprego pode começar a subir, mas a eleição já está bem próxima e é improvável que esse processo seja veloz e intenso o suficiente para produzir estragos relevantes antes que os votos sejam digitados nas urnas eletrônicas (mesmo se considerando um segundo turno).

Em termos políticos, a partir de amanhã Dilma terá aproximadamente o triplo e o sêxtuplo do tempo de propaganda eleitoral de, respectivamente, tucanos e socialistas. Com a tradicional competência petista em marketing político, a presidente poderá martelar dia e noite os inegáveis avanços do seu governo em transferências e programas na área de educação, saúde, moradia e agricultura familiar, entre outros.

Todas essas boas notícias para Dilma, no entanto, se relativizam com a constatação de que Marina Silva pode vir a ser um adversário bem mais difícil que Aécio. O fato de que a virtual candidata do PSB já ultrapasse Dilma nas simulações de segundo turno da pesquisa Datafolha (47% contra 43%) deve ter provocado grande consternação entre os estrategistas do Planalto. As intenções de voto em Aécio parecem muito ligadas ao sentimento anti-PT e anti-Dilma, sendo sensíveis, portanto, à recuperação ainda que apenas parcial da popularidade da presidente. Já Marina foge da acirrada polaridade entre petistas e tucanos, o que a torna uma adversária mais temível.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 18/8/14, segunda-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.