Dilma pode se recuperar?

Presidente parece precocemente derrotada e é de fato difícil dar uma virada: mas chances que existem dependem de apoio firme à ortodoxia de Joaquim Levy.

Fernando Dantas

24 de março de 2015 | 10h23

A presidente Dilma Rousseff parece ter sido nocauteada no início do primeiro assalto do seu segundo mandato. A popularidade presidencial despencou para níveis baixíssimos, o País está em recessão, a inflação caminha muito acima do teto da meta, o dólar disparou e o déficit externo ainda se mantem em nível perigosamente elevado. Especula-se abertamente sobre a possibilidade de o Brasil ser rebaixado pelas agências de rating e perder o grau de investimento.

Em meio ao que talvez seja o maior escândalo de corrupção em termos de volumes de dinheiro desde a redemocratização, maciças manifestações contra o seu governo já foram realizadas, e outras estão planejadas. Um eventual impeachment tornou-se tema corriqueiro das discussões, independentemente de haver fundamento legal para tanto. A base de sustentação política no Congresso vive momentos de grande turbulência.

Diante desse quadro, uma questão relevante é a de saber quais seriam as chances – se é que existem – de Dilma reconstruir seu governo até 2018 de tal forma a dar uma base competitiva a mais uma candidatura presidencial do seu partido. Pensando-se a partir da perspectiva presente, a possibilidade parece reduzida. Uma vitória petista estaria muito mais dependente do carisma de Lula e da sua habilidade em se distanciar do atual do governo do que da recuperação do prestígio de Dilma.

Mas quatro anos são um longo tempo, e é arriscado decretar precocemente a falência política da presidente. Uma comparação que vem à mente é com o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, em que também houve uma espécie de estelionato eleitoral – a desvalorização de janeiro de 1999 – e a popularidade presidencial desabou. FHC não se recuperou, e Lula derrotou José Serra, o candidato tucano, em 2002.

Um detalhe importante, porém, é que Fernando Henrique foi abalroado por uma série de crises agudas nos dois últimos anos do seu mandato: racionamento, contágio da crise argentina e pânico eleitoral com a perspectiva de eleição do PT. Os fundamentos macroeconômicos eram mais frágeis na época, e a economia real foi duramente punida em 2001 e 2002. Em 2000, no entanto, houve uma boa recuperação.

Apesar de todos os riscos inerentes às hipóteses contrafactuais, não parece descabido imaginar que, na ausência das crises de 2001 e 2002, as chances tucanas na disputa entre Serra e Lula seriam melhores, e a história poderia ter sido outra. Ou dito de outra forma, é possível que quatro anos fossem suficientes para FHC se recuperar politicamente da aguda crise de 1999, a julgar pela retomada surpreendentemente rápida da economia em 2000.

Essa constatação poderia trazer algum alívio à Dilma, mas há diferenças para pior no seu caso. O desarranjo microeconômico dos últimos anos, e especialmente a partir da crise global, foi muito grande, com um padrão de intervenção estatal que piorou o marco regulatório e distorceu mercados e a alocação de recursos – os resultados foram claramente negativos. Estas políticas podem ter prejudicado o investimento, e desfazê-las não é um exercício rápido e simples.

Além disso, com o fim do superciclo de commodities, o Brasil pode entrar numa fase de digerir excessos de consumo e de crédito – ainda que não seja nada da dimensão do estouro da superbolha que afetou os Estados Unidos e a Europa, é um fator que pode frear uma eventual retomada.

Se a comparação for deslocada para a rápida recuperação no início do primeiro mandato de Lula, depois da crise de 2002 e 2003, hoje falta o combustível das commodities em alta. E mesmo a velocíssima recuperação pós-2009, depois do abalo da crise global, contou com uma melhora muito expressiva dos termos de troca, que não deve ocorrer agora.

Assim, não é certo que o reequilíbrio macroeconômico lançará as bases para um crescimento satisfatório ainda no atual mandato de Dilma.

O caminho da ortodoxia

De qualquer forma, se alguma chance existe de a presidente se recuperar até 2018, ela depende de alguns fatores cruciais. Quanto mais rápido for o ajuste de preços relativos que traga o déficit em conta corrente para níveis mais sustentáveis, melhor. O problema é que essa correção rápida pode implicar uma combinação de desvalorização nominal do real ainda bem mais intensa que a atual, uma política monetária extremamente dura e um significativo aumento do desemprego – um cardápio que provavelmente piorará ainda mais a popularidade e a governabilidade no curto prazo, e que o governo pode vir a querer evitar. Todo esse cenário tem com pré-condição, é claro, que a equipe econômica prossiga no ajuste fiscal a ferro e fogo.

Na suposição de que um ajuste de preços relativos completo ocorra na primeira metade do governo Dilma (uma hipótese muito longe de garantida), a economia poderia ser recuperar puxada pela indústria. Mas aí entra outra dificuldade: a fraca demanda mundial por manufaturados, com excesso de oferta em nível global. Se esta situação perdurar, a saída pela indústria fica mais difícil.

Ainda assim, esse parece ser o único caminho que traz alguma chance à presidente. Ele pressupõe apoio total à ortodoxia de Levy, uma postura de aceitação ainda maior da desvalorização do câmbio, um possível endurecimento do BC e sangue-frio para enfrentar condições políticas e de popularidade ainda piores do que as atuais.

Mas é preciso atuar também nas expectativas em relação aos investimentos. É necessário reverter as políticas intervencionistas, abrir a economia, negociar acordos comerciais com as principais economias do mundo e fazer uma autocrítica pública da nova matriz econômica. Ações deste tipo poderiam dar confiança aos investidores de que o modelo heterodoxo foi definitivamente afastado, e antecipar investimentos que, sem isso, iriam esperar o conserto total da economia antes de serem realizados. Um rápido e agressivo programa de concessões na infraestrutura certamente ajudaria.

Não é nada garantido que todas essas medidas sejam suficientes para que a presidente se recupere e chegue ao fim do seu mandato com popularidade razoável e um país em boas condições econômicas e políticas para ser entregue ao seu sucessor ou sucessora. Mas parece quase certo que, se não seguir um roteiro desse tipo, a presidente permanecerá na lona. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 23/3/15, segunda-feira.

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