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Dilma pode vencer no Senado?

Probabilidade de volta da presidente afastada entra no radar do mercado, mas ainda é vista como remota.

Fernando Dantas

01 Junho 2016 | 00h25

A probabilidade de Dilma ser absolvida de crime de responsabilidade na votação do impeachment no Senado parece se manter baixa, a julgar pelo comportamento dos ativos financeiros, que não vêm manifestando grande nervosismo em relação a esta hipótese. A possibilidade entrou no radar do mercado e até poderia estar tendo alguma influência, mas muito menor do que aconteceria caso a volta de Dilma – que investidores e operadores veem como desastrosa – de fato se tornasse provável.

O jornal “O Globo” noticiou hoje que os senadores Romário (PSB-RJ) e Acir Gurgacz (PDT-Rio), que deram seus votos pela abertura do processo de impeachment no Senado, dizem agora que há possibilidade que votem contra no julgamento do mérito da questão. O senador Cristóvam (PPS-DF) também diz não ter posição fechada sobre o julgamento do impeachment.

Por outro lado, a votação da admissibilidade teve três ausências e uma abstenção (do presidente do Senado, Renan Calheiros), e obteve 55 votos, um a mais do que os 54 que configuram a maioria de 2/3 necessária a aprovar definitivamente o impeachment de Dilma Rousseff.

Assim, numa análise puramente aritmética, parece apertada a margem que a maioria pró-impeachment tem para aprová-lo, com chances grandes de que a contagem final fique bem próxima do mínimo necessário de 54 votos – assim, o fiel da balança poderia ser decidido pelo voto de um ou dois senadores.

Parece, no entanto, que por enquanto prevalece no mercado uma visão de que a probabilidade de vitória de Dilma é baixa por questões políticas e econômicas. A ideia seria de que, na hora ‘h’, os senadores vão avaliar, mais do que as filigranas da definição de crime de responsabilidade, os cenários que se apresentam ao País diante da continuação do governo Temer ou da volta de Dilma.

“O retorno de Dilma não parece ser do interesse nem do sistema político nem do País do ponto de vista econômico, os incentivos não empurram nessa direção”, diz um conhecido gestor de recursos.

Ele nota que os indicadores de confiança já estão melhores e há sinais de que “o pior da recessão pode ter ficado para trás”. Sobre o impacto de uma eventual vitória de Dilma, ele diz que “basta olhar as duas horas depois que o Valdir Maranhão (PP-MA, atual presidente da Câmara) tentou melar o impeachment, e ver para onde foram o dólar, a bolsa e a curva dos juros”, uma referência à forte reação negativa do mercado.

O gestor acrescenta que as forças políticas se reacomodaram para se adaptar ao governo Temer, e a volta de Dilma significaria mais uma mudança profunda e arriscada às vésperas das eleições municipais. Outro fator é que dificilmente um político como Romário – para pegar um dos exemplos entre os que estão titubeando – assumiria o voto de Minerva para trazer Dilma de volta, sob o risco de ser responsabilizado caso isso fosse desastroso para o País. “Acho que, apenas juntando uma folga de uns dez senadores para barrar o impeachment, isto pode acontecer”.

No entanto, o gestor admite que a possibilidade da volta de Dilma, embora muito pouco provável, não pode ser 100% descartada, configurando o que o mercado chama de um “risco de cauda”. O que poderia fazer com que se materializasse seria um fracasso total do governo Temer ou o envolvimento direto e cabal do presidente em exercício na Lava-Jato.

Esta também é a visão do cientista político Octavio Amorim, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape).

“A volta de Dilma é um cenário remoto, mas que não pode ser descartado, e só tem chances de acontecer se o atual governo for desastroso em junho e julho ou se Temer for totalmente desmoralizado pelo envolvimento direto na Lava-Jato”, ele diz. Como o gestor mencionado acima, Amorim considera que a presidente afastada não tem praticamente nenhuma condição de recompor a governabilidade e seu retorno muito provavelmente levaria a um desastre econômico e político.

O cientista político desconfia até do real interesse de Lula e do PT na volta de Dilma, e acha que toda a luta política que se trava agora pode ser em parte um “teatro político” com vistas às eleições à frente, sobretudo a presidencial de 2018.

Uma última hipótese é que Dilma tentasse reforçar sua posição na votação do impeachment anunciando que, caso voltasse, encabeçaria um pacto nacional e um movimento por uma mudança constitucional que permitisse uma nova eleição presidencial a curto prazo.

Amorim acha duvidoso que a presidente afastasse aceitasse isso, mas mesmo que aceite, ele considera que a nova eleição solteira para presidente criaria grandes riscos para o País e o sistema partidário, como a vitória de um “salvador da Pátria” sem qualquer base no Congresso. Para o pesquisador, os políticos estão cientes desse risco e relutariam em tomar este caminho. Mesmo o debate de novas eleições, acrescenta Amorim, também é parcialmente jogo de cena político, voltado a eleições futuras.

“A vitória de Dilma na votação do impeachment continua a ser uma possibilidade remota, mas que não pode ser ignorada”, conclui Amorim. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 31/5/16, terça-feira.