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Dilma, se reeleita, muda economia?

Fernando Dantas

30 de abril de 2014 | 13h17

A derrota da presidente Dilma Rousseff nas eleições deste ano transformou-se num evento de chances bem razoáveis para uma corrente expressiva de analistas políticos e econômicos. Há até os que consideram que seja o desfecho mais provável, embora ainda não haja nenhum consenso neste sentido.

A pesquisa de ontem (29/4) da CNT/MDA mostra mais um recuo de popularidade da presidente, e melhor desempenho dos candidatos de oposição (com queda de Dilma, que ainda lidera) nas simulações eleitorais. São números que corroboram a ideia de que o favoritismo do governo está em processo de significativo desgaste.

O mercado financeiro, como já se nota há algum tempo, vê a vitória da oposição como um evento positivo. José Márcio Camargo, economista-chefe da gestora Opus e professor da PUC-Rio, acha que a ligação mais direta entre uma eventual derrota da presidente e otimismo no mercado está na bolsa.

Para ele, há uma crença dos operadores de que ambos os candidatos de oposição – Aécio Neves, do PSDB, e Eduardo Campos, do PSB – fariam um ajuste rápido de preços administrados represados, beneficiando diretamente a Petrobrás e a Eletrobrás, que têm ações importantes na bolsa brasileira. Além disso, haveria menos interferência política na gestão dessas empresas.

Ele acrescenta que o câmbio é mais dependente de eventos internacionais, e que, caso a oposição realmente torne-se favorita, espera uma alta das taxas de juros curtas e uma queda das longas. A ideia é que, com Aécio ou Campos, o Banco Central faria um ajuste mais forte e mais rápido da política monetária. Com o ganho de credibilidade, as expectativas de inflação mais longas cairiam e, com elas, os juros.

O sócio de uma gestora de recursos resume o que muita gente pensa no mercado: “A saída de Dilma seria ótima para a economia brasileira, porque ela introduziu um política de intervencionismo e desenvolvimentismo à antiga que provavelmente seria descontinuada até por Lula”.

Uma boa questão, porém, é se a própria Dilma não mudaria os rumos da sua política numa direção mais ortodoxa, caso fosse vitoriosa nas eleições. Esta parece ser, por exemplo, a visão de Tony Volpon, que chefia a análise de emergentes nas Américas do Nomura em Nova York.

Volpon divulgou hoje relatório sobre recente visita ao Brasil, onde conversou com investidores, analistas e membros do governo. Ele se diz surpreso com o número de contatos que disseram crer na derrota de Dilma. Mas o economista da Nomura acrescenta que outro achado notável da sua visita ao Brasil é que “o processo eleitoral está empurrando o debate sobre política econômica numa direção amigável ao investidor”.

Assim, Volpon, que crê numa eleição apertada, acha que todos os candidatos, incluindo Dilma, prometem políticas similares para 2015, com reforço da política fiscal e combate à inflação. Para o analista, em vez de os partidos políticos – como normalmente ocorre – estarem se esforçando para superar-se mutuamente em promessas populistas, a insatisfação com a economia está levando-os para propostas mais ortodoxas.

Interlocutores

Alguns interlocutores de Dilma ao longo de sua carreira ministerial e presidencial, porém, duvidam da conversão da presidente. Eles notam que a presidente no passado já fez acenos em direção à ortodoxia, que mais tarde não foram confirmados pelos fatos. No caso das agências reguladoras, por exemplo, Dilma revelou a interlocutores que comprava a tese de que a despolitização era necessária, mas quase não avançou nesta direção.

Há dois tipos de problema com a presidente, nessa visão. O primeiro é que, ao contrário de Lula, Dilma tem um comprometimento intelectual com ideias heterodoxas na economia. Essa inclinação da presidente se soma ao seu temperamento agressivo diante de notícias ruins para fazer com que erros e falhas claras sejam sistematicamente objeto de racionalizações defensivas dentro do círculo mais íntimo de poder.

Isso faz com que a leitura presidencial da conjuntura seja sempre mais otimista do que a do mercado – e que pode não ser apenas uma mensagem de marketing para o público externo. Dessa forma, a óbvia pressão por mudanças percebida fora do governo pode não ser tão intensa no seu interior.

O segundo problema é que a personalidade da presidente, muito mais afeita a questões técnicas do que políticas, tem contribuído para o seu isolamento. Ao contrário de Lula ou Fernando Henrique, que mantinham contato estreito com amigos e pessoas de confiança nas mais altas esferas de poder nos setores privado e público, que serviam como canal de comunicação e correia externa das articulações do governo, Dilma é mais retraída e desconfiada. Com isso, ao tentar operar quase que apenas de cima para baixo uma máquina gigantesca, ineficiente e cheia de conexões políticas como o Estado brasileiro, a presidente sofreu uma gradual deterioração da sua imagem de boa gestora.

Se essa visão estiver correta, a combinação de ideologia e inaptidão para a política de Dilma pode efetivamente, como parece imaginar boa parte do mercado, fazer com que a presidente mude muito menos a política econômica do que os candidatos de oposição em 2015. Outra questão, porém, que ainda não parece ter entrado no radar dos analistas, é se Aécio ou Campos terão condições políticas de fazer o duríssimo ajuste econômico que está na cabeça da maior parte do mercado.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast ontem, 29/4, terça-feira

 

 

 

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