Dilma vai encarar ano difícil na economia

Fernando Dantas

19 de dezembro de 2012 | 20h47

A presidente Dilma Rousseff termina a primeira metade do seu mandato numa situação paradoxal. A sua popularidade permanece em níveis elevadíssimos, na esteira da renda e do emprego, que ainda exibem números extremamente positivos. Os dados de produção e inflação, porém, são bastante ruins. E, neste fim de ano, a situação ficou ainda mais
preocupante.

Primeiro, o resultado do PIB do terceiro trimestre foi uma ducha de água fria nas previsões de retomada em 2013, além das próprias projeções de 2012. Mais recentemente, o quadro inflacionário piorou. Segundo indicações da coleta de preços realizada pela gestora de recursos JGP, a inflação de dezembro pode chegar a 0,7% ou até mais, o que faria a inflação do ano fechar em torno de 5,8%.

Como observa o economista Fernando Rocha, sócio da JPG, o ano de 2012 vai terminando com perspectivas de expansão do PIB de 1% e IPCA de quase 6%. É uma combinação muito ruim de crescimento e inflação, que ninguém esperava no início do ano. Na primeira coleta de expectativas do mercado de 2012, no início de janeiro, a previsão para este ano era de crescimento de 3,3% e inflação de 5,31%.

Para 2013, projeções como a da economista Monica Baumgarten de Bolle, sócia da Consultoria Galanto, de crescimento de 3,5%, já parecem otimistas. Monica ressalva que “também é muito possível que dê 3%”, e que sua projeção principal baseia-se em alguns pontos muito específicos, como um desempenho muito bom da agropecuária e a recuperação
das vendas de caminhões, cujo mau desempenho em 2012 afetou significativamente o investimento.

Já Carlos Kawall, economista-chefe do banco de investimentos J. Safra, tem uma projeção de crescimento de 3% para 2013, e acha que há risco até de ficar abaixo de 3%.

Um dos principais problemas para o crescimento no próximo ano, na visão de diversos analistas, são os investimentos, que vão cair em 2012 e que ainda não deram sinais satisfatórios de recuperação.

É outro ponto que causa certa perplexidade, e explicações muito variadas. Mônica, por exemplo, acredita na tese de que o hiperativismo do governo está confundindo as empresas e atrapalhando as decisões de investimento. Kawall, por sua vez, acha que é um problema fundamentalmente de confiança, que deveria ser atacado com ênfase nas reformas estruturais. Rocha, finalmente, acha que o investimento vem a reboque da demanda, que enfrenta a digestão de um ciclo de crédito ao consumo que foi um pouco além do que seria sustentável.

O governo, por sua vez, tem se mostrado bem mais preocupado com a falta de crescimento do que com a alta de inflação. As medidas de estímulo parecem não cessar, como as iniciativas recentes de ampliar e prorrogar o Programa de Sustentação do Investimento (PSI), do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e a esoneração da construção civil.

O repique da inflação, porém, pode ter mexido com os brios do Banco Central (BC). O limite colocado à desvalorização do real, com o apoio da Fazenda, é um sinal de que a alta dos preços está voltando a preocupar o governo.

Outra questão delicada são as relações entre a Fazenda e o BC, se a retomada persistir decepcionando. Neste caso, é possível que o ministro Guido Mantega, que é cobrado basicamente pelo desempenho do PIB, seja tentado a lançar novas medidas de estímulo à demanda e até, no limite, não cumprir a meta cheia de superávit primário pelo segundo ano consecutivo.

Ambas as medidas atrapalhariam o trabalho do BC de garantir a tal “convergência não linear” da inflação para o centro da meta, de 4,5%.

Assim, Dilma vai iniciar a segunda metade do seu mandato na delicada situação de se ver cercada pela ameaça de baixo crescimento de um lado e pelo risco de alta inflação do outro, e com o problema extra de administrar o que pode vir a ser o fim da perfeita harmonia entre Fazenda e BC, que caracterizou até agora o seu governo.

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