“Dilmização” ou “Sarneyzação”?

Cientista político Octavio de Amorim Neto acha que aumentaram chances de governo Temer ir pelo mesmo caminho do governo Dilma, mas com a diferença de que o desfecho seria a renúncia, e não o impeachment. Ainda assim, Amorim Neto ainda acha mais provável que Temer "que já está capengando, continue capengando até 2018".

Fernando Dantas

13 de dezembro de 2016 | 17h11

O pior risco que o governo Temer corre hoje não é o da “sarneyzação”, mas sim o da “dilmização”, segundo o cientista político Octavio Amorim Neto, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape/FGV-Rio).

A “sarneyzação” seria, para o presidente Temer, chegar ao final do mandato, mas totalmente desmoralizado politicamente e legando para o seu sucessor ou sucessora um País em ruínas, que nem teria iniciado a grande maioria das mudanças necessárias para soerguê-lo.

Já a “dilmização”, como explica Amorim Neto, também parte da perda total da credibilidade para governar, mas vai até a renúncia do atual presidente para evitar mais um longo conflito político, no contexto de maciças mobilizações de rua pedindo a sua queda. É uma situação em que se repete a falência do poder decisório que vitimou Dilma, com “uma contaminação mútua entre a crise política e a econômica”, nas palavras do cientista político.

Com o envolvimento de Temer e do seu núcleo político nas denúncias da Lava-Jato, somado aos índices de popularidade (revelados pelo Datafolha ontem) que já atingem níveis próximos ao de Dilma Rousseff quando esta foi destituída, cresceram as chances de que Temer não chegue ao fim do mandato – embora este ainda não seja o cenário mais provável, para Amorim Neto.

Há uma diferença, porém, sobre a forma como Temer cairia, que seria a renúncia, e não o impeachment, na visão do pesquisador da Ebape.

“Do ponto de vista legislativo, o presidente tem uma maioria para resistir ao impeachment, ao contrário da Dilma, que perdeu o apoio da sua base”, ele observa. É difícil que, como Eduardo Cunha no caso da ex-presidente, o novo presidente da Câmara a ser eleito em 2017 utilize o seu poder monocrático de abrir o processo de impeachment contra Temer, na avaliação do cientista político.

Ainda assim, ele considera que, se eventualmente Temer for implicado de maneira grave e definitiva na Lava-Jato, ou se o TSE no início de 2017 condenar a chapa Dilma-Temer de 2014, a única maneira de evitar um longo e sangrento conflito político seria a renúncia do presidente, que poderia se sentir forçado a este ato pela pressão das ruas e do próprio sistema político.

A partir daí, na hipótese muito provável de que a renúncia não ocorresse até 31 de dezembro, o Congresso teria que escolher um (ou uma) presidente para cumprir o mandato tampão até 2018, e já se especula sobre diferentes probabilidades, como a manutenção da equipe econômica de Henrique Meirelles e a escolha de figuras teoricamente impolutas do Judiciário ou do Congresso.

De qualquer forma, o cenário mais provável para Amorim Neto é o de que Temer, que já está “capengando”, na sua avaliação, continue a capengar até 2018. Reformas econômicas serão apenas parcialmente aprovadas, mas não na profundidade necessária. A maioria no Congresso evita o impeachment, a crise econômica prossegue, mas sem a ruptura política da renúncia.

Este cenário é um pouco diferente da “sarneyzação”, porque a crise econômica atual, apesar de gravíssima, não gera uma situação tão caótica quando a hiperinflação de 1988 e 1989. Assim, Temer poderia ao menos fazer alguns remendos antes de entregar a economia ao seu sucessor ou sucessora.

O cenário cuja probabilidade caiu muito, com a não reação da economia e com o avanço da Lava-Jato, segundo Amorim Neto, foi o mais otimista. Neste, por conta das suas excelentes relações com o Congresso, Temer convenceria a maioria de centro-direita a aprovar profundas reformas econômicas, sobretudo na Previdência. A partir daí, surgiria um círculo virtuoso entre melhora econômica, recuperação da popularidade presidencial e governabilidade política.

“Nesse cenário, Temer poderia chegar a 2018 mais ou menos como Itamar Franco ao fim do seu mandato – começou mal, mas terminou bem”, resume o pesquisador da Ebape.

Esse final feliz, entretanto, parece cada vez menos provável porque Temer hoje joga todas as suas fichas na tentativa de relançar o crescimento econômico, o que parece cada vez mais difícil num horizonte politicamente palatável. “É só o que restou ao governo”, diz Amorim Neto.

O problema, na sua visão, é que o governo Temer já era “fraco por natureza, porque o presidente não foi eleito diretamente e também porque o processo de destituição de Dilma foi extremamente controverso, conturbado e polarizador”. As novas revelações da Lava-Jato e a surpresa negativa na economia enfraqueceram ainda mais o atual presidente.

Segundo Amorim Neto, a retirada de bombeiros e policiais militares da reforma da Previdência já pode ser um sintoma desta debilitação: “Como um presidente fraco vai fazer uma boa reforma da Previdência, se forçar as corporações a contribuírem com sua parte depende do poder político do governo federal?”, questiona o cientista político. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/12/16, segunda-feira.