Populismo faz mal para a direita

Jair Bolsonaro vai ficando isolado na América Latina e nas Américas, à medida que candidatos de esquerda derrotam a direita populista e essa polarização empurra a centro-direita para fora do jogo.

Fernando Dantas

21 de junho de 2022 | 13h01

O presidente Jair Bolsonaro está ficando crescentemente isolado no contexto latino-americano e mesmo das Américas como um todo.

Nos mais importantes países da América Latina, candidatos de esquerda têm batido nas urnas a direita.

São os casos das vitórias de Andrés Manuel López Obrador sobre Ricardo Anaya e outros no México em julho de 2018, de Alberto Fernandez sobre Mauricio Macri na Argentina em outubro de 2019, de Pedro Castillo sobre Keiko Fujimori no Peru em abril de 2021, de Gabriel Boric sobre José Antonio Kast no Chile em dezembro de 2021 e, nesse último domingo, de Gustavo Preto sobre Rodolfo Hernández na Colômbia.

Esses cinco países, com 277 milhões de habitantes, representam 42,5% da população da América Latina e do Caribe. Se o favorito Lula derrotar Bolsonaro em outubro deste ano, em quatro anos a esquerda terá derrotado a direita em países latino-americanos correspondentes a 75% da população da região, incluindo o Caribe.

E essa conta não leva em conta países menores em que a esquerda está no poder pelo voto, como a Bolívia, nem ditaduras de esquerda como Cuba, Venezuela e Nicarágua.

Também não está considerado que nos dois vizinhos ricos da América do Norte, Estados Unidos e Canadá, com um total de 367 milhões de habitantes, os eleitores colocaram na chefia do Poder Executivo políticos de centro-esquerda, que também derrotaram a direita.

Na verdade, a impressão é de que a maior vítima do fortalecimento do populismo de direita no chamado “Hemisfério Ocidental”, isto é, nas Américas (incluindo o Caribe) é a centro-direita, e não a esquerda.

Uma possível maneira de se pensar esse fenômeno é a de que o radicalismo de direita consegue galvanizar e fidelizar uma parcela expressiva do eleitorado de uma forma que a centro-direita, com seu tom cosmopolita e elitista, nunca conseguiu.

Esse quinhão do eleitorado da direita populista, entretanto, é significativo mas não majoritário, o que é um padrão recorrente em movimentos políticos radicais. No final das contas, o condomínio eleitoral que vai da esquerda até a centro-esquerda tende a reunir mais votos e a derrotar a direita fumegante.

A ressalva é que não se deve simplificar demais a história. Nem todas as vitórias da esquerda citadas acima foram sobre a direita populista, como nos importante exemplos do México e da Argentina. E em alguns casos o candidato de esquerda vitorioso era ainda mais caricaturalmente populista que o de direita, como no Peru. No Uruguai, a centro-direita de Luis Lacalle Pou derrotou por margem muito apertada a centro-esquerda em novembro de 2019.

Ainda assim, quando se pensa em políticos como Bolsonaro e Donald Trump, de países que juntos contêm mais da metade da população do Hemisfério Ocidental, a destruição da centro-direita pela direita populista parece evidente.

No caso norte-americano, o fenômeno se deu por meio da conquista do Partido Republicano pelo trumpismo. No Brasil, com a derrocada do PSDB diante da polarização entre lulismo e bolsonarismo.

Tanto no caso dos Estados Unidos como no Brasil, a direita populista chegou ao poder e governou de forma sofrível, para dizer o mínimo. Não se pode de forma nenhuma desconectar o despreparo, a ignorância e cultivo sistemático da mentira, típicos desses dois líderes de extrema-direita, dos maus resultados dos seus governos.

O populismo é um trunfo para ganhar eleições, mas um fardo para governar. No longo prazo, no caso da direita, é uma armadilha que inviabiliza as bandeiras da centro-direita civilizada.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 20/6/2022, segunda-feira.