Discreto otimismo no PIB

Dados sobre atividade econômica têm levado à redução das projeções de recuo da economia brasileira em 2020. Mas mercado de trabalho, fim dos programas de apoio à renda e ao emprego do governo e risco fiscal podem prejudicar PIB em 2021.

Fernando Dantas

17 de agosto de 2020 | 15h00

Um discreto otimismo está se insinuando na visão sobre o desempenho da economia brasileira em 2020, ano da pandemia do coronavírus.

A turma de analistas que, há alguns meses, quando caiu a ficha da dramaticidade do impacto econômico da Covid-19, apostou que a queda do PIB este ano se aproximaria de 10% aparentemente se enganou, e os que mantiveram o sangue-frio e projetaram um recuo mais próximo de 5% parecem ter acertado.

Pelo menos, é o que pode se dizer com as informações que se tem até agora (inclusive o não surgimento de uma “segunda onda” da pandemia equivalente à primeira nas localidades mais afetadas inicialmente, como Rio, Amazonas, Ceará etc. – se isso mudar, tudo muda).

Hoje, como noticiado pelo repórter Cícero Cotrim, da Agência Estado, o Goldman Sachs revisou sua projeção de queda do PIB brasileiro em 2020 de 7,5% para 5%. Já matéria da Bloomberg aponta que o Brasil deve ter a menor recessão este ano num grupo de economias latino-americanas relevantes, que inclui México, Argentina, Colômbia, Peru e Chile.

Esta semana (10 a 14/8) saíram indicadores importantes para definir qual foi a queda da economia brasileira no segundo trimestre, o de maior impacto do coronavírus no Brasil.

Na Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) referente a junho, tanto o varejo restrito quanto o ampliado (que inclui veículos, peças e material de construção) vieram melhores que a mediana do Projeções Broadcast, tanto na comparação com maio, na série dessazonalizada, quanto na comparação com junho de 2019.

O mesmo ocorreu com o volume de serviços da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), embora, nesse caso, a diferença do resultado efetivo em relação à mediana do Projeções Broadcast tenha sido pequena.

O Indicador de Atividade Econômica (IAE) da FGV de junho cresceu 4,1% ante maio, em termos dessazonalizados. No segundo trimestre, o IAE recuou 10,7% ante o mesmo período de 2019, e 10,3 ante o primeiro trimestre de 2020, dessazonalizadamente. São quedas recorde, mas estão em linha com quem prevê recuo do PIB em torno de 5% este ano.

Segundo a economista Luana Miranda, especialista em atividade do Ibre/FGV, os resultados da indústria e do varejo surpreenderam positivamente, o que dá um viés positivo para o PIB.

Mas ela nota que, na PMS, apesar de um resultado agregado em linha com a projeção do Ibre – os serviços caíram 12% em junho ante o mesmo mês de 2019, a projeção era de -11,9% –, o desempenho dos “serviços prestados às famílias”, que é relevante para o PIB, continua muito ruim.

Em relação ao mesmo mês de 2019, os serviços prestados às famílias em junho recuaram 57,5%, depois de quedas de, respectivamente, 61,6% e 65,3% em maio e abril, na mesma métrica. No primeiro semestre, os serviços prestados às famílias apresentam recuo de 35,2%.

Para Luana, a boa notícia da PMC (e também da produção industrial) em junho foi em grande parte “compensada” pela má notícia dos serviços prestados às famílias no mesmo mês.

Dessa forma, o Ibre fez pequenos retoques nas suas projeções: queda de 8,8% no segundo trimestre (na comparação com o primeiro, dessazonalizada), no lugar de -9%; e queda de 5,4% no ano, em vez de -5,5%.

A economista considera que ainda pode haver pequenos ajustes “com viés positivo”, a depender dos indicadores que vierem pela frente e de como será o processo de retirada dos programas do governo  de apoio à renda e ao emprego – se abrupta ou mais gradativa – em função da pandemia.

Alexandre Ázara, economista-chefe e sócio da gestora Mauá Capital, projeta queda de 5% do PIB este ano, mas considera que o resultado final tem mais chance de ficar próximo de -4,5% do que de -5,5%.

Segundo Ázara, alguns analistas trabalharam com a ideia de uma “volta [retomada pós-mergulho da pandemia] fixa”, se esquecendo que o tamanho da “volta” está ligado ao tamanho da queda. Para ele, é de esperar que a economia “volte 70%” do que caiu no segundo trimestre, ao longo do terceiro.

Por outro lado, tanto Ázara quanto Luana têm algumas preocupações quanto à atividade, que se estendem para 2021.

A economista está apreensiva quanto à combinação do mercado de trabalho muito abalado com a já mencionada retirada de benefícios criados na pandemia.

Segundo suas contas, a massa salarial ampliada, que inclui benefícios sociais e previdenciários, será maior no segundo e terceiro trimestres deste ano do que no mesmo período do ano passado. O principal responsável por isso, claro, é o auxílio emergencial, cujo custo até agora é de espantosos R$ 250 bilhões (caso não haja mais extensões).

Para o quarto trimestre, entretanto, com o que já foi anunciado, a projeção é de que a massa salarial ampliada caia. A preocupação, portanto, é como a economia vai funcionar quando, ainda com o mercado de trabalho em situação muito ruim, os estímulos forem retirados no final do ano.

Desemprego

Ázara, por outro lado, alerta contra uma visão por demais pessimista em relação ao mercado de trabalho.

É fato que, se a taxa de desemprego atual fosse calculada considerando a mesma força de trabalho pré-pandemia (na verdade, o indicador sofreu enorme recuo), o número seria de 22%.

O economista nota que muitas pessoas não conseguem procurar emprego, por causa do isolamento social, mas, à medida que a economia reabra e várias atividades (especialmente de serviços) voltem a funcionar, tanto elas vão procurar como muitas têm chance de achar.

Mesmo que um restaurante tenha demitido seus garçons, ele vai ter que contratar novos profissionais para atender aos clientes com a reabertura da economia, se não tiver fechado as portas.

Claro que negócios fecharam e a reabertura de alguns serviços será parcial (restaurantes com menos mesas), mas daí a imaginar que a taxa de desemprego irá para mais de 20% e lá se manterá, quando a economia reabrir, é um exagero, para Ázara.

Um ponto, porém, em que as apreensões de Luana e Ázara coincidem perfeitamente é em relação à questão fiscal.

Após a explosão do déficit e da dívida pública em 2020 em função do combate à pandemia, o Executivo e o Legislativo teriam que chegar a um acordo para pôr a casa fiscal em ordem em 2021.

Não significa dar um cavalo de pau impossível nas contas públicas, mas manter o teto dos gastos e aprovar medidas que deem segurança aos investidores de que as coisas vão voltar gradativamente ao seu devido lugar, em termos fiscais.

Se isso não for feito, entretanto, haverá aumento da percepção de risco, elevação de juros, possíveis novas disparadas do dólar, criando um ambiente instável que vai deprimir os investimentos, um componente importante da demanda (e que já anda péssimo das pernas).

Em função de todos esses fatores negativos e dúvidas, a projeção de crescimento do PIB do Ibre em 2021 é de apenas 2,4%.

Já Ázara vê um cenário binário: “Se mudar o regime fiscal e a gente gastar demais, vai dar confusão, o BC vai ter que subir o juro em algum momento e a gente vai para 2%; mas, se não fizermos maluquice, e a confiança, que depende do fiscal, voltar, podemos crescer 3%, 3,5% em 2021”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/8, sexta-feira.